COISAS DESTAS ILHAS

Wednesday, November 29, 2023

Devaneio Sobre a Bandeira e a Nação …A Fotosintese da Fé …. Estado de Alma … Aquela Taverna …Estradas do Pensamento … Fim de Verao

 D. Sebastião-Emigrante

Devaneio Sobre a Bandeira e a Nação 

Bandeira verde, encarnada,
Escudo amarelo ao meio -
Esperança que trespassada
O mundo escondeu no peito

Orgulho de homens de guerra,
De vitórias e conquistas,
De castelos, dessa terra,
Por quem deram suas vidas

Se fosse bandeira branca
Com cruz azul como era
Tão mais cor da Pátria mansa
De Sol e paz, seria ela

Tão mais da cor da história
De aldeias alvas, vazias,
Do trigo loiro, memória
D’esperanças, de fé -perdidas

Terra de grei embarcada
-- El-rei D.Sebastião,
Quem fica não tem lembrada
As lutas dessa nação

Nossas vidas assim demos,
Caravelas à deriva. 
Pelo mundo fora temos
Cinco quinas, nossa signa!

Contra os canhões não marchamos,
Menos valentes não somos
Deixando a terra lhe damos
Nova terra, novos sonhos

Bandeira cor numismal
Quem te quisera de origem
Com as cores de Portugal, 
mar, céu, co’ a cruz branca, virgem

Nação minha emigrada,
Nação minha repartida,
Nova Israel embarcada
Alma minha dividida.

Silvério Gabriel de Melo. Idar-Oberstein 1987-1989 

A Fotosíntese da Fé 

Perante Deus cobre-te e descobre
Qu’ele tanto ilumina como queima
Cada um de nós, cometas, p’ra ele corre
Na sua luz o nosso ser se ateia

Despista-se quem se aproxima muito
Nele se despenha, tomba, despadaça
Para o perceber, basta-se viver no mundo
Com a mesma magia da folha, a mesma graça

A folha que ao Sol seu coração abre
Com a clorofila o faz dar vida à terra
A clorofila, a fé que na gente arde
O transforma em sopro, em atmosfera

Perante Deus, cometas em ignição
Cada um de nós é um instante de espaço em combustão

Observação pela passagem do cometa Hale-Bopp, no seu percurso de dois mil e quatro centos anos.
Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 


Estado de Alma 

Aí vem o peixeiro pela rua fora
Apregoando peixe, “Eh chicharro fresco!”
Brilha um Sol de oiro de manhã bem cedo
Vão de batas brancas as crianças p’ra escola

Sobre um muro pousa um pássaro, mas voa
Logo de seguida, pelo mundo a esmo
Ir com ele, erguer-me alto, o meu desejo
Ser livre voar pelo céu à toa

Pára aqui o padeiro com a sua carroça
Cheira a pão fresco, que divino aroma
Abre-se u’a janela, alguém bate a u’a porta

Lá ao fundo o mar, luzindo se mostra
Manso, até parece que dormindo, sonha
Ali a minha alma se quer tem de volta

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

Aquela Taverna 

Aquela tasca, aquela taverna
No canto ao fundo da nossa rua
Porta de par em par, sempre aberta
Quer houvesse Sol, quer houvesse chuva

Era ali um centro de ameno convívio
De jogo de cartas, de se entrar e beber
Onde se falava alto, se encontrava com um amigo
Se ouviam fados, se fumava com prazer

Onde se ouvia o relato de football
Com vigor e ferpas se discutia política
Onde já quente até se vinha sentar o Sol.
Onde se vinha viver, encontrar-se com a vida

Aquela tasca, aquela velha loja
De cascas de tremoço, pontas de cigarro
Onde eu criança entrava em sobressalto
Para rebuçados comprar, ou qualquer outra coisa

Ali era um centro de façanhas, falatório
De encontros, desencontros, pragas, palavrões
De amizades, negócios, vantagens, serões
Brigas e vanglórias, impudência e ócio

Quem lhe atiraria a primeira pedra?
Quem lá não entrava para provar uns copos
Petiscar ou comprar uma caixa de fósforos
Beber um café, um pirolito, quem era?

Animava a rua, dava-lhe vida e carácter
Sem ela morreria algo- nenhum assobio
Se ouviria ao passar de mulherio qualquer
Encheria a rua só o silêncio e o vazio

Fechando os olhos na geografia da alma
A avisto ali com sua porta vermelha
Onde o Sol à soleira aquecendo brilhava
- Vou daí e entro, para encontrar u’a centelha

Vem entra comigo amigo p’ra jogarmos,
A vida sem tempo num copo provarmos

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

Estradas do Pensamento 

Imerso num mar de idéias, em silêncio
No escuro do quarto, não consigo dormir
Ouço ao longe o som d'uma estrada, o movimento
O zumbido, rugido de veículos num ir e vir

Cerrando os olhos, submergindo em mim, tento
Deslocar-me ao tempo que vivi a sorrir
Reactivar lugares e gentes, um momento
de felicidade , de vida, de sentir

A vida é sim uma via em sentido único
Ficam-nos nos olhos as lágrimas, o desejo
De se nunca chegar ao fim da viagem

Viver é um passar, seguir um certo rumo
Com os nossos sentidos, nossa alma mesmo
--Cada dia vivido, parte da paisagem

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

Fim de Verão
Homenagem a Diana, a Princesa do Povo e Mother Teresa de Calcutta
 

Partem em forma de V, para terras de luz e calor
Elevam-se no céu no fim do Verão-- as andorinhas
Esta seguindo aquela, todas em linha, direitinhas
Sobem, cheias d'sperança no seu voo de fé e candôr

Irmãs do Sol, como custa o adeus--tão grande a dôr
A natureza toda diz que começa o Inverno, se doiram as vinhas
Atrás ficam as memórias esmagadas -- lagares de sinas
Voam alto, muito alto, para longe em vôo de amor

Almas libertas, almas princesas, almas rainhas, 
Seguem no céu entre castelos de nuvens finas
Um rumo fixo, um rumo certo, um rumo puro

Ficamos nós já finda a ceifa, já nua a messe
Com um não sei quê na alma, um peso-prece
Que leve eleva, que leve segue rumo ao futuro

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 97 

Estreita Estrada ….. Salmo do Bosque.

 Estreita Estrada 


Pedi a Deus para que me ditasse um poema
Ele assim o fez enquanto eu meditava
Como uma mãe que com a sua mão dirige a pena
Fez-me escrever o que no coração já escrito estava.

Deu-me a rima e o engenho, até me deu seu tema
Inspirou-me qual a mansa luz da madrugada
Deixou-me ver em tudo e em nada um esquema
Qual passarinho cantar feliz nesta língua amada.

P'la mão de Deus, p'la sua mão de fada
Atrevo-me assim escrever poemas qual fados
Oleiro lhes dar forma e vida,toda a minha alma.

Um dia quando a vida tiver em mim sua obra acabada
Quero seguir o caminho destes seus traços
Seguir no encanto deles a estreita estrada.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha

Salmo do bosque 

Andando pelo bosque te procuro,
Amigo dos meus sonhos, anjo sereno
Por entre a luz e a sombra , ser bom e puro
Encontro-te na beleza do silêncio

Percebo-te em cada árvore, feto e arbusto
Em cada rama , tronco, ramo, rebento
Teu nobre ser adivinho, calado e mudo
Por alamedas contíguas ao pensamento

Oh Deus cheio de graça, assim te escuto
No cântico dos pássaros, gorgeio louco
Silvano, esquivo, subtil, alma do bosque

Apoiado a uma vara, Moisés seguro
Num momento de alma, tua lei de ouro
A tua presença me guia, me abraça e cobre

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha

Onde Esta o Deus Feito Homem. ..Arvore de Natal ….

 Onde Está o Deus Feito Homem? 


Estão a acimentar e a asfaltar a Terra,
--Gente que estupidez!
Estão a roubar a beleza que era
O mundo uma vez

Andam cada vez a fazer mais casas e carros
Gastam e estragam tudo
Todos querem mais ter, ocupados
Em conseguir mais categoria e vulto

Há cada vez mais poluição, mais lixo
Ninguém se contenta com pouco
Todos se entregam ao prazer, sem juizo
Anda este mundo louco

Todos se querem fazer-- ninguém
Quer ser só o que é
Hoje não vale a nobreza e o bem 
Assim o determina a ralé

Assim em vez de se ir à missa
Abrir-se o espirito, abrir-se os ouvidos
Vai-se ao Discó com a malta em riça
Dançar, beber, cegar os sentidos

Anda de avesso a humanidade
Com u'a cauda frontíspicial
De onde lhe advém a faculdade
De se provar o melhor animal

Neste Natal, que presépio-- repara
Dorme um feto com u'a pistola
Traz uma camisa na mão, a palha
São cartões de crédito e nota

Tem uma televisão e um computador
Ali ao seu lado por vaca e por burro
A uma metralhadora por bengala, que dôr
Se apoia José, absorto e confuso

Cantam os anjos como Michael Jackson
Um rap activo, um rap indecente
Dão-se glória a si, dão glória ao homem
Que mais palhaço seja, que gente

É um Carnaval é que é o Natal
Onde o pior faz-se pelo melhor pior
A humanidade com um sorriso infernal
Dorme-- parasita de si mesmo, sem amor

Chegam os pastores de óculos escuros
Para se não lhe verem os olhos
Vermelhos, rajados de sangue, impuros
Encavacados pela droga, meios mortos

Vêm os reis magos de skin heads vestidos
Urrando "Heil Sieg!" em bestial euforia
Arremaçam cocktail monotofs , divertidos
Depois sorrindo negam-no --- ninguém pia

Matam as crianças todas com jogos
Lindos programas interactivos
Não escapa nenhum, inocentes--mortos
Se ouve o "quero e dá-me já! " de filhos

Estão a comprar e a vender o coração
Gente, ei-lo no mercado
Deitado sobre palhas de vícios, leilão
"Onde está o Deus feito homem?" brado. 

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

Árvore de Natal 

Olha ali para a janela,
Mira, que árvore divina,
Coberta de luz, que bela!
Vestida de prata fina.

É um céu posto a um cantinho,
Esta árvore de Natal
Galáxias, 'strelas fulgindo
Bela-- encanto sideral

É uma fada encantada,
Encantando o mundo assim.
É filha do Sol, sonhada,
Jóia de luz, serafim

Com seu vestido rodado,
Com seu vestido de tule
Parece cantar um fado,
Com lantejoulas de azul

Fadista da noite fria
Que tens tu para cantar?
Serena envolta em magia
Pareces mais a sonhar.

Lá no mato tu deixaste
O teu corpo, a vida deste;
Uma clareira formaste,
A luz que te fez, trouxeste

Um infante de louça dorme 
Ao teus pés, tu rainha
Mata toda a sede e fome
Que divina criancinha!

Árvore de Natal enfeitada
Como tu há-de brilhar
Na noite, serena, encantada
A sua luz, seu sonhar

Pregá-lo-ão num madeiro
O erguerão qual ladrão
Será luz, Deus verdadeiro
Feito homem, nosso irmão

Ó enfeitada árvore, fadista
Linda árvore de Natal
Cheia de graça, encanto, artista
Mistério original 

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

 Aquele Caminho 


Aquele atalho que leva ao bosque
Dois trilhos tem de terra calçada
A erva cresce pelo meio à sorte
Beija-o a luz do sol de madrugada

Uma fila de postos ligados por arame
Fazem uma cerca que o divide do pasto
Não há ninguém que ao ali passar não ame
Poder parar ou prolongar o seu passo

Aquele caminho cheio de vida e liberdade
Onde um passarinho veio pousar chilreando
Não sei porquê, me fez pensar de verdade
Não sei porquê me fez parar pensando

Por ali passaram em algum tempo os cruzados
Muito soldados sangrando e gemendo
Passando eu-- junto a eles os meus passos
Sou mero momento debaixo de um céu cinzento

Um breve instante, como gorgeiar de passáro
Uma mera sombra que pousando logo voa
A vida é uma miragem, um ilusão do espaço
Ai doi a alma, saber que tudo é pó-- magoa

Só este caminho entre caminhos esquecido
Parece a única coisa eternamente existindo
Parado fico para desvendar o sentido
Daquele atalho por onde passo sózinho 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.




My Poem and I 

I gave my hand to a gentle dream
So as a child, I held on to my Dad
Wherever he went, I followed, glad
That I was his: we were a team

I follow this dream, wherever it goes
I follow this dream-- It is my call
This dream is my life, my soul, my all
It's all my faith, my wishes, my hopes

My memories, my intense soul longing
This dream I obey, this dream I follow
My fate, my very yesterday and tomorrow 
My poetry, my song--my being, its doing
This dream and I, this song and poem
We belong together, together we roam 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Germany.
Mãe, Eis Aí o Teu Filho! 

Poemas de Amor de Mãe
Também já escrevi:
Os quantos já li e ouvi,
Sonetos e quadras.

Dos poemas mais lindos
Que ouvisse, porém
Foi o poema da cruz
No Monte Calvário

Ali se escoando
O Filho do Homem
Dava à luz
Era mãe
Do Amor 
e da Vida

Como vela apagava
O seu sopro--
Morria;
Nascia uma mãe
Na sua dor,
Agonia...

Mãe, eis aí o teu filho
Filho, eis aí a tua Mãe! 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.
….
Cristo 

Depuseram aquele homem num madeiro
Naquela triste manhã de Primavera
O pregaram entre seu gemer ligeiro
Mais a algazarra de gente irrequieta.

O ergueram ali na altura, ali ao meio
Abraçado pela aragem, alma liberta
Fala com o pai, sente-o no peito
Na agonia da cruz, a alma lhe entrega

Que homem é este com sonhos de criança,
Este rei dos Judeus que ali exala
Coroado de espinhos, frágil, exangue?

Rei é de um reino novo, nova esperança
Que pulsa tal andorinha no lado em chaga,
Reino que faz com o seu corpo e com seu sangue. 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.




Paixão 

O Cristo, quantos choram a tua morte
Se condoiem com o teu sangue derramado
Não compreendem, não, teu amor tão nobre
Que foste para isso mesmo destinado 

Tu que és filho de Deus, p’ra nosso molde
Te entregaste a essa cruz, cruxificado
Não morrias ali como qualquer outro morre
Eras já espirito quase, Deus transformado

No jardim das Oliveiras já em agonia
Em tua perfeição, sangue suavas
Ali já eras Deus, onde o homem acabava

A cruz foi a apoteose da profecia
Onde amarrado e pregado te entregavas
Á humanidade toda, com toda a alma 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.





Momento Fluidico. Rubrica do Pensar

Momento Fluídico 

Já não há fadas, nem naiades
Por ribeiras da minha terra
Lá só vivem sim as saudades
De outros tempos, outra era

Meios dias e meias tardes
Canta a água tagarela
Passa, vem de que lugares?
--Fresca do alto da serra

Se reflecte o mundo nela
A água que passa, se leva 
Sem cessar, feita em espelho 

Vai descendo, deslizando
Eternamente passando
Causa e efeito de si mesmo 

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 


Rúbrica do Pensar 

O sonho é a rúbrica do pensar
Do sentir, do viver, do existir
Olhai as crianças no seu brincar
Tudo sonhando podem assumir

Serem reis, correr, saltar, voar
Tudo podem ser e conseguir
O sonho pode tudo construir
--Para sonhar, basta se só acreditar

Por isso eu creio, espero e amo
Sonhar-- que a vida é ela todo um sonho
Nele toda a minha fé e esperança ponho

Oh sonho, oh ilusão, oh Deus, eu clamo
Ajuda-me a sonhar, manter o voo
Que me eleve--ave leve num mundo novo 

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

Momento de Ilha

 Momento de Ilha 


Assobiando pela estrada fora
Vai um camponês-- aos ombros um sacho
Com uma aguilhada conduz o gado
Descalço vai, mas nem se importa

É um paraíso a sua ilha toda
Mas vai absorto, distraído, alado
Sonhando um dia poder mudar seu fado
Espera poder ir-se dali embora

Para terras longes, para terras grandes
Onde melhor sorte possa encontrar
Fugir ao destino que o prende ao mar

Ouvem-se p'los pastos chocalhos distantes
Bucólica a terra de encantos tais
Não o deixará, dele não sairá jamais.

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

Mulher de Aldeia 

Ia de tamancos p'ra fonte
A mulher da minha terra
O tempo lhe apagou o nome
Mas não, nunca a graça dela
Vi-a trazendo duas talhas
Ligeira p'la rua abaixo
Tantas, tantas madrugadas
De quanta lida e cansaço
De manhã de madrugada
De avental, passo ligeiro
Que bonita, que engraçada
Que ternura no seu geito
Foi um dia ainda jovem 
Que à fonte se veio encontrar
Com aquele que foi seu homem
Com quem iria casar
Junto à fonte o seu primeiro
Seu primeiro beijo deu
Transbordava o pote cheio
-Como de tudo se esqueceu
Naquele momento da fonte
Naquele momento de vida
Embarcou e foi p'ra longe
Seu coração de batida
Depois entra e sai dia
Trouxe um dia um filho seu
Se tornou mãe a rapariga
Que na fonte a talha encheu
No lamento do encher de água 
De qualquer bilha de barro
Juntou com lágrimas sua mágoa
Amarga mágoa --seu fado
Passaram-se anos atrás de anos
Tornou-se triste, cansou-se
A canção da água, seus prantos
Suavizavam, calou-se
Atado o seu lenço à nuca
Passava como fidalga
Na volta molhava a rua
Ela mais sua velha talha
Secou-se já essa fonte
Mas não a memória dela
A sua alma foi p'ra longe
Mas ficou sim a história dela.

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

A Vida É Um Forno 

A vida é um forno
Onde se coze o pão
Padeiro é o fôlego
Fermento o coração

Amassado com gosto
Com esforço e paixão
--Cada broa é um consôlo
Promessa, missão

O espírito é a massa
A côdea é o corpo
Conforme a chama
Sai duro ou sai fôfo

Conforme o ardor
Sai anjo ou diabo
Fresco e bom p'lo amor
P'lo vício queimado

Padeira, Padeira
De rosto abrasado
Olhai a braseira
tomais de nós cuidado

Este aqui já se abre
A brasa o queima
Padeira, comadre
Vem ao forno, espreita

Traz p'ra cá a pá
Padeira depressa
Que na hora está
Do pão ir p'ra mesa

Lavrador, lavrador
Prepara-me o vinho
Que seja do melhor
Que seja do mais fino

Sobre esta minha mesa
Coloca a toalha
Sobre ela a candeia 
De luz e de graça

Fresquinho o pão
Mais uns bolos de massa
Depois da procissão
Sabe bem vir p'ra casa

Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha 

A Poem Can Free You

A Poem 

A Poem can set you free
Can give you wings
Can raise you to the light
Can make you see
Learn to hold on to a little poem, a little song
follow it wherever it takes you
in your dreams

A Poem has the quality of a prayer
That you gently recite 
Say to yourself
Listen to a poem and what it sings
--A seed will in the dark
Obey the tree 

Silverio DeMelo
Vogelbach, Germany

Encantacão

 Encantação 


Encontro no teu amor o ouro puro
O brilho que me dá luz, que me dá vida
Paixão que me ilumina qual Sol o dia
Tu és o meu desejo, tu és meu tudo

Não há amor igual no mundo, julgo
Que tal doçura tenha, tal magia
O teu carinho e ternura é que me guia
És razão do meu ser, te amo e adulo

Sem ti, nem é possível o paraíso
Pois em ti está todo o fim e princípio
És a razão do meu próprio coração

Sem ti, até o mundo, é tão escuro
Tão negro, tão vazio, tão confuso
Tu és, Amor, meu encanto e encantação 

Silverio Gabriel de Melo
Vogelbach, Alemanha. 

Emigrante

 Emigrante 


Quando falam de Portugal
Falam sim também de mim
Um Português que afinal
Longe da terra é assim
Sente uma vontade sem igual
Uma saudade sem fim
Da sua terra Natal
Como uma flor seu jardim

Como uma flor seu jardim
Onde quer que esteja, configura
Eu o país de onde vim
Trago comigo com amargura

Amargura de não poder
Ter ficado e dado fruto
---Ser emigrante é morrer
Ser emigrante é um luto! 

Silverio Gabriel de Melo
Vogelbach, Alemanha. 

Aquele Caminho

 Aquele Caminho 


Aquele atalho que leva ao bosque
Dois trilhos tem de terra calçada
A erva cresce pelo meio à sorte
Beija-o a luz do sol de madrugada

Uma fila de postos ligados por arame
Fazem uma cerca que o divide do pasto
Não há ninguém que ao ali passar não ame
Poder parar ou prolongar o seu passo

Aquele caminho cheio de vida e liberdade
Onde um passarinho veio pousar chilreando
Não sei porquê, me fez pensar de verdade
Não sei porquê me fez parar pensando

Por ali passaram em algum tempo os cruzados
Muito soldados sangrando e gemendo
Passando eu-- junto a eles os meus passos
Sou mero momento debaixo de um céu cinzento

Um breve instante, como gorgeiar de passáro
Uma mera sombra que pousando logo voa
A vida é uma miragem, um ilusão do espaço
Ai doi a alma, saber que tudo é pó-- magoa

Só este caminho entre caminhos esquecido
Parece a única coisa eternamente existindo
Parado fico para desvendar o sentido
Daquele atalho por onde passo sózinho 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.
email: 



My Poem and I 

I gave my hand to a gentle dream
So as a child, I held on to my Dad
Wherever he went, I followed, glad
That I was his: we were a team

I follow this dream, wherever it goes
I follow this dream-- It is my call
This dream is my life, my soul, my all
It's all my faith, my wishes, my hopes

My memories, my intense soul longing
This dream I obey, this dream I follow
My fate, my very yesterday and tomorrow 
My poetry, my song--my being, its doing
This dream and I, this song and poem
We belong together, together we roam 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Germany.

Pascoa Cristo e Paixão

 Cristo 


Depuseram aquele homem num madeiro
Naquela triste manhã de Primavera
O pregaram entre seu gemer ligeiro
Mais a algazarra de gente irrequieta.

O ergueram ali na altura, ali ao meio
Abraçado pela aragem, alma liberta
Fala com o pai, sente-o no peito
Na agonia da cruz, a alma lhe entrega

Que homem é este com sonhos de criança,
Este rei dos Judeus que ali exala
Coroado de espinhos, frágil, exangue?

Rei é de um reino novo, nova esperança
Que pulsa tal andorinha no lado em chaga,
Reino que faz com o seu corpo e com seu sangue. 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.
email: silverio@mail3.bunt.com



Paixão 

O Cristo, quantos choram a tua morte
Se condoiem com o teu sangue derramado
Não compreendem, não, teu amor tão nobre
Que foste para isso mesmo destinado 

Tu que és filho de Deus, p’ra nosso molde
Te entregaste a essa cruz, cruxificado
Não morrias ali como qualquer outro morre
Eras já espirito quase, Deus transformado

No jardim das Oliveiras já em agonia
Em tua perfeição, sangue suavas
Ali já eras Deus, onde o homem acabava

A cruz foi a apoteose da profecia
Onde amarrado e pregado te entregavas
Á humanidade toda, com toda a alma 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.

Mae, Eis Ai o teu Filho

 Mãe, Eis Aí o Teu Filho! 


Poemas de Amor de Mãe
Também já escrevi:
Os quantos já li e ouvi,
Sonetos e quadras.

Dos poemas mais lindos
Que ouvisse, porém
Foi o poema da cruz
No Monte Calvário

Ali se escoando
O Filho do Homem
Dava à luz
Era mãe
Do Amor 
e da Vida

Como vela apagava
O seu sopro--
Morria;
Nascia uma mãe
Na sua dor,
Agonia...

Mãe, eis aí o teu filho
Filho, eis aí a tua Mãe! 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.

Que Procurais, Oh Gente no Sepulcro Vazio ?

 Que Procurais, Oh Gente! 


A Arca da Aliança
Era seguida por uma luz
--Cristo nossa fé e esperança
Tornou-se também luz na cruz

A Arca quase vazia
Só o que lá tinha dentro
Era a fé, era a magia
Do Amor em pensamento

Junto com as Tábuas da Lei
Era tudo que lá havia
Aquela Arca era um Rei
Que um povo inteiro seguia

Cristo em aliança consigo
Fez-se em vida e eternidade
Por Amor em sacrifício
Se tornou luz para a humanidade

A fé que nós nele temos
É uma coluna de luz
Que nos segue através dos tempos
Que nos ampara e conduz

A Arca da Aliança é a Terra
Onde a humanidade fermenta
Onde o espirito se revela
Quem a luz cria e alimenta

O sepulcro está vazio
Quem é que procurais, oh gente?
-Ai que alegria, está vivo!
Vive em quem nele crê, dentro o sente! 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha.

Depois do Tempo a Saudade

 Saudade 


Depois de tanto tempo, a saudade
É uma lembança ténue, uma quimera
Que no pensamento fica, feita espera
De si mesma, de alguma outra realidade

Já não é disto ou daquilo, é eternidade
Esta saudade que nos acompanha, que se preza
Nos faz olhar p’ra vida, sua natureza
É o único rasto que nos ficou da felicidade

Qual um vinho que nos oferece, o seu torpor
Nos confunde, nos empresta uma clareza
Nos rouba ela a nós mesmos com seu ardor

Ah, saudade, só tu é que és Portuguesa
Ilha eterna, sumida num mar de dôr
Este cálice que bebo, esta tristeza 

Silvério Gabriel deMelo, Vogelbach, Alemanha 

Jose Saramago na Linha do Horizonte

 José Saramago 


José Saramago-um navio ao longe
Vulto da minha terra, da minha Pátria
Passa junto à linha do horizonte
Um risco de sonho, que a distância apaga

Dono de romances, de palavras em viagem
Que eu mal conhêço-- mas estimaria conhecer
Marinheiro luso à deriva pelo mar da linguagem,
Deixa atrás por presença o meu olhar a arder 

José Saramago, vapôr da Língua Portuguesa
Paquete de terras de Sul, atracado num porto
Firme, aprumado, com uma certa gentileza
Uma certa qualidade da nossa terra, do nosso povo.

De longe lhe envio um aceno em forma de poema
Fico a vê-lo afastar-se na superfície ondulante
Mais um navio que passa junto à minha ilha pequena
Se some, sem se aproximar, segue o seu rumo anelante.

Entre nós fica o mar imenso, depois com o Sol posto
Fica a glória do momento o marulho do mar como um côro
Parabéns! 

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha - 09.10.98

Fauston Num Episódio da Mosca No Verão

 Fausto Num Episódio da Mosca no Verão 


Eu sou a mosca, a nogenta mosca
Todo o lugar sujo, busco, sobrevôo
Meu alimento - tudo que enjoa, é nojo
Eu sou a mosca que tudo cheira, gosta

Meus filhos têm, sim, a côr do meu sangue
Os deixo com o lixo mais rico e imundo
Quanto mais podre, mais fértil, fecundo
Mais comem e vivem, têm a sorte grande

Sou até o pai do comer sem fome
Como o que vejo, tudo beijo e lambo
Por onde passo, até do mais limpo manjo
Sou o prazer que tudo devora e come

Sou a alma de tudo que é vil e nogento
Do vício ao desejo ou prazer mais sujo
Consigo tudo pela moléstia e o abuso
A carne me chama, só em carne penso

Eu sou a mosca, nasci do saltão
Sou o pensamento que no lixo mora
Transformo o próximo com desprezo em fossa
Na minha imundice sufoca a razão

Na guerra sou eu o mais forte e valente
Medalhas? Tenho-as, sou sim general
Todo o mundo me faz continência, mal
na cabeça de alguém passe até sómente

Na juventude mais na côr de pûs
Que faz de Hitler seu modêlo de mim
Vive o meu sonho, são meus filhos, sim!
Na porcaria mais porca os depûz

Eu sou a mosca, poeta traduz
Para o mundo todo, o que ao ouvido zumbo
Que eu sou o anjo do sujo e do imundo
A noite inteira deixa acesa a luz

Vem daí Fausto, comigo com gôsto
Que eu te dou asas como as minhas, de renda
Para te ergueres, e escreveres num poema
Sobre o meu reino de fartura e gôzo

Vem por estes países onde é puro o orgulho
No tenir do dinheiro, não tenhas não dúvida
Onde ele estiver, está a coisa mais pútrida
A gente mais fina se lho vende ao avulso

Tanto visito o forte como visito o fraco
Tenho a liberdade mais livre que existe
Uma mosca nunca se satisfaz ou desiste
Não há nada não que me tenha farto

Onde houver o homem, Fausto, escuta agora
Há uma riqueza em mau cheiro e em doçura
Eu fui feito à imagem dessa criatura
Fausto, até o bem só o mal o comprova

"Tu és sim a mosca, a maldita mosca
Que me não deixas não no Verão dormir
No teu vôo constante, eterno zumbir
Eu Fausto, me afasto, Deus, minha alma implora!" 

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha

Ponta Delgada Inesquecivel

 Ponta Delgada 


Ponta Delgada, nossa inesquecível, linda cidade,
Quem não se lembra das suas "Portas" de três arcadas?
Da sua formosa baía, com saudade?
Das suas ruas estreitas, bonitas calçadas?

Das suas praças, sua Avenida, sua majestade
De igrejas, conventos, casas apalaçadas?
De estufas brancas a aquarar---do seu alarde
De cal, basalto e ardósia, colinas mágicas?

Quem não se lembra da Matriz, da alta torre do relógio?
Do Senhor Santo Cristo--- baluarte da nossa história?
Do Alto da Mãe de Deus--- "Alfama" de sonho e ócio?

...À frente o mar, ao longe o "Monte da Lagoa"?
---Quem nela viveu a traz presa na memória
Nossa Atlântida de sonhos, pequena Lisboa! 

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha

Numerologia para o Ano de 1999

 Numerologia 


Novinho em folha chega o Ano Novo
Aqui está para guardar o posto

Soldado apresenta-se, rapado o cabelo
De farda bem vincada, nota-se-lhe genica e génio
Troca o seu lugar com aquele do ano velho
Veio para guardar a entrada do segundo milénio

Viril, senhor de si, com músculos de aço
Mostra as suas armas, faz uma continência
Mil Novecentos e Noventa e Nove com um passo
À meia-noite passa a marcar a sua presença

O seu nome como o milénio que acaba
Tirada a prova dos nove traz um Um de rei, de cavaleiro
De quem conquista e descobre--- senhor de uma cruzada
Chefia a saída e a entrada, quem no fim será o primeiro

Três Noves indicam um ano de teimosia e justiça
De sentenças dadas de sentenças exigidas
Três juizes sentenciarão a estupidez, a ganância e a cobiça
Far-se-hão decisões, haverão renhices, birras --- brigas rijas

No país Chave quem chefia teme--- guarda segrêdos
Que se tranformarão cedo em pesadêlos
Acordarão o Seis com ele os mêdos e vergonhas de si mesmos
Ver-se-hão presos, vítimas de vicios e enrêdos

Na nova Europa, haverão muitas ocasiões sociais
Se gastará o dinheiro, deitar-se-lho-há fora
Dominará o Cinco com luxo, festas, desporto, planos tais
Viagens, o satisfazer este e aquele à custa da broca

Em Portugal dominará o Três, o Bom-Viver
A arte, o sentir, o actuar---pretender-se-há
Falar-se-há com muita diplomacia, se gozará com prazer
Se esconderá e chorar-se-há no fim o que o fado nos dá

A Alemanha ver-se-há unidamente dividida
Pois nela dominará o Dois, um mundo dentro em si
Casadinha vai ter filho, vai ter filha
Que lhe incha a barriga, nauseada não se ri

A Inglaterra e a França poderosas, voluntariosas
Representarão muito bem o irascível, o explosível  Oito
Mandarão na Banca, involver-se-hão com investimentos e quotas
Terão e farão surprêsas que têm a ver como o Tesoiro

Este ano que entra, perfeito, bem disposto
Fugirá à amizade trivial, seguirá o direito
É um ano intelectual, que fará o que lhe der no gosto
Obedecerá a si mesmo, o que fizer estará feito

Mil Novecentos e Noventa e Nove domina o Nove
No fim isolado, sózinho ele com o Um so se dará
---O nove como o um que não cede, ninguém o convencer pode
Todo ouvidos, a sua decisão uma vez feita, feita está

Assim o reza a numerologia que diz nunca se engana
O fim do milénio será já o principio do segundo que avança? 

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha

Ponta Delgada

 Ponta Delgada 


Cidade de Ponta Delgada
Cidade franca e formosa
Onda na praia encalhada
Vaga do mar caprichosa

Cidade, mosaico rico
---Santo Cristo dos Milagres
Cidade que é um sorriso
Sem igual entre as cidades

Sereia de olhos mansos
Burgo de igrejas e solares
De humildes casebres--cantos
Cheios de graça, singulares

Terra, filha de Portugal
De espertos mercadores
De Antero de Quental
Terra de muitos valores

Da nossa ilha capital
Princesa, pérola do mar
Com proa, elegância tal
Cidade de encantar

Com as suas estufas brancas
Qual lençóis de branco linho
Cidade onde fomos crianças
Tu e eu - um mundo lindo

De muitas vias estreitas
Da Avenida "Marginal"
De araucárias e palmeiras
O cheiro de ananás e sal

Amante de marinheiros
Que bela cidade a nossa
De praças, jardins soalheiros
Da calheta, sua longa doca

Lembro-te cidade minha
Com carinho especial
Com a tua graça marinha
Presença de lava e cal

Tuas "Portas da Cidade"
Tuas calçadas bonitas
Teu calor, graciosidade
Muitas cancelas antigas

Onde se debruçavam as velhas
Onde se debruçavam as moças
A namorar--- lindas donzelas
Que nem flores, cravos e rosas

Terra de mulheres de capote
De muito jardim romântico
Cidade vaidosa, com porte
Fronteiriça ao mar Atlântico 

Coração de uma ilha esmeralda
Rodeada de sonho e flores
Relíquia da antiga Atlântida
Soberana dos Açores

Ausente, de ti presente
Me encontro, guardo-te assim
Comigo vives em mente
Eu em ti e tu em mim 

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha

Poema Poemeto

 Poema Poemeto 


Poemeto, poemeto
Escreve-os um poetastro
É um poemeto o trevo
que cresce e se espalha no pasto

Antes ele que a macega
Com sua riqueza daninha
Antes ele que muita bela
Espinhosa santolina

Um trevo de quatro folhas
Uma sorte de encontrar
Escrevo p’ra todas as moças
Que os gostem de os apanhar

Verdes são os meus poemas
Quero-os ao gosto do povo
Na boca de jovens morenas
Em canções que ouvir dá gosto

Poemetas Lusitanos
Poemetas celtas da serra
Cantados por pastores serranos
Mais pastoras na Primavera

Pelo o orvalho descobertos
Poemas de tudo e nada
Poemas de amores e afectos
Em alguma desgarrrada


Poemetos, poemetos
Como malmequeres bravos
Cantam desejos e anseios
Na poesia sem cuidados

Fogem ao tempo no rimar
Feitos ingénuos romeiros
Galegos, poemas do mar
Poemas de marinheiros

Escrevo este poemetos
Poemas da minha alma
Perdida por lugares ermos
Entre a urze e a silva brava 

Poema Poemeto 

Poemeto, poemeto
Escreve-os um poetastro
É um poemeto o trevo
que cresce e se espalha no pasto

Antes ele que a macega
Com sua riqueza daninha
Antes ele que muita bela
Espinhosa santolina

Um trevo de quatro folhas
Uma sorte de encontrar
Escrevo p’ra todas as moças
Que os gostem de os apanhar

Verdes são os meus poemas
Quero-os ao gosto do povo
Na boca de jovens morenas
Em canções que ouvir dá gosto

Poemetas Lusitanos
Poemetas celtas da serra
Cantados por pastores serranos
Mais pastoras na Primavera

Pelo o orvalho descobertos
Poemas de tudo e nada
Poemas de amores e afectos
Em alguma desgarrrada

Poemetos, poemetos
Como malmequeres bravos
Cantam desejos e anseios
Na poesia sem cuidados

Fogem ao tempo no rimar
Feitos ingénuos romeiros
Galegos, poemas do mar
Poemas de marinheiros

Escrevo este poemetos
Poemas da minha alma
Perdida por lugares ermos
Entre a urze e a silva brava 

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha

Almas Plastificadas

 


Almas Plastificadas


No mundo da arte, a exposição de Gunther von Hagan em Mannheim este ano, tem dado muito que falar. Trata-se da arte do corpo humano na sua forma mais anatómica-cadáveres.

Os corpos constam de defuntos que antes de morrerem doaram assim os seus restos mortais ao artista que os recicla pelo processo de plasticização-isso é mergulham-nos num produto que inclui a acetona, a qual remove toda a água existente nas células, assim impedindo o processo de decomposição das mesmas e dando uma qualidade plástica a toda a engrenagem do organismo humano que pelo processo fica exposto-já que a pele se desintegra no mesmo processo.

Assim, em vez de serem enterrados ou cremados, os corpos transformam-se em peças de arte. Alguns corpos são abertos ao meio para assim melhor facilitar os orgãos interiores ficarem expostos; outros são quartejados e depõe tais corpos como estátuas anatómicas nas diferentes posições como se ainda em vida-só com as entranhas à amostra. Deparamos assim com aquela dimensão da máquina humana na sua forma mais nua e crua. Precisamos mesmo lembrarmo-nos que tais figuras, se tratam de pessoas humanas reais e não figurinos distutos de vida que ali se erguem perante nós.

Macabro, não é tanto o efeito. É que pelo processo, o corpo em toda a sua constituição de músculos, tendões, ligamentos, fibras, capilares, etc. adquire uma qualidade plástica, que rouba nesse contexto a impressão de talho humano que era de esperar. É como se estivessemos em alguma aula de anatomia humana e tudo simplesmente moderno, simplesmente mundano, simplesmente Europeu--pela estética empregada pelo artista, em outras palavras, tudo, avant-gardiste, mesmo fino.

Como em qualquer exposição de arte, deparamos com outras maneiras de interpretar o real. Como filigrana, a fibra de nervos e capilares, e os orgãos com suas formas globulares, cabalísticas, depõem-nos perante um universo de filamentos, cabos, uma cibernética su generis, um todo interior mecânico , ao mesmo tempo fascinantemente, complexo e simples.

Nesta idade de materialismo e do poder da ciencia e da técnica, garante-se à máquina humana desta forma um pouco de uma eternidade-nega-se-lhe ao pó, quando pertence ao pó. Nega-se-lhe a própria alma dando-lhe a qualidade do plástico.

Alguém mesmo perguntou ao artista o que ele pensava sobre a alma dessas pessoas que assim se exponham como peças de arte. O artista então respondeu que, como artista só compreendia o que podia tocar, ver, sentir com os sentidos. Como a alma não se pode ver, nem sentir ou perceber pelos sentidos, pouco se interessava como tais realidades que considerava como consideração descabida, com o qual não se interessava.

....

Há no Museu de Ciências de Boston, uma secção dedicada aos fenómenos ópticos e à psicologia a eles relacionados. Numa secção desse museu, existem umas máscaras que de uma forma misteriosa, quase mágica, ao com elas depararmos , temos a impressão de estarmos a olhar para rostos vivos, cujos olhos nos seguem de uma forma estranha. Numa análise mais cuidada dessas mesmas máscaras, descobrimos, que afinal os tais rostos não passam de máscaras invertidas cujos os olhos são apenas orifícios que levam de um espaço vazio a um outro espaço vazio.

Ora o fenómeno explica-se pelo facto de o célebro criar tal impressão, negando o vazio e criando impressões mais em linha com certas configurações próprias segundo certas percepções que pela auto-sugestão e outras certas condições se desencadeiam no processo de percepção. Por isso ao depararmos com as máscaras, a primeira impressão é que se tratam de rostos e de olhos de alguém vivo, e não de meras máscaras. Só com uma melhor análise nos consciencializamos do erro.

Nos nossos dias, pena, existem mais pessoas humanas a quererem viver com o vazio, o real mais real segundo os sentidos, regeitando impressões mais profundas do sentir, do pensar do perceber a realidade, do próprio cerne da mente. Havendo treinado os sentidos a regeitar o insólito, o fantástico, o que consideram um erro de percepção, constroiem para si um mundo onde não permitem o sonho, a alma, o fantástico, milagres, a própria fé, o etéreo por convicção. O seu mundo torna-se, assim, um mundo, onde impera o vazio, o causal, o palpável, o mecânico-- o esqueleto e carne das coisas.
Regeitam o espirito como irreal e inconsequente, almas inconsequentemente quartejadas, materializadas, plastificadas em vida. Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



Por Estradas e Caminhos do Pensamento. Caminhos de Estrelas.

 Pelas Estradas do Pensamento - Caminhos de Estrelas



Esta Semana toda estive a apresentar Starlab, para os alunos da parte elementar da nossa escola ----um planetário portátil das Learning Technologies Inc. de Massachusets. Em Fevereiro, por cortesia, convida-me uma escola Alemã da área, para que faça o mesmo, e depois são os alunos secundários e o preparar outros professores para também poderem apresentar nas diversas escolas do sistema aqui na zona de Ramstein, Kaiserslautern e Wiesbaden. Apesar do muito trabalho, pois faço isso como actividade extra-curricular, maravilho-me com o entusiasmo que me rodeia. Nestas semanas param-me pelos corredores da escola, no banco, no mercado, como "Aí vem o Mr. Dimilo" ou "Diminico" ou apenas o "Starman" ou "Spaceman" Torna-se divertido. Rara é a classe ou o grupo por mais desassossegado que seja, que não se assossegue com as histórias e os dados do universo na sua forma mais superlativa. Quando lhes indico um balão vazio e lhes garanto que tudo começou como esse tal balão vazio-de um centro onde não havia nem tempo, nem espaço, e que devido ao Big-Bang, a eclosão da matéria da sua forma mais virgem e estável, tudo se desenvolveu---se conseguiu um universo com espaço e tempo que corre como por uma auto-estrada por aí fora a velocidades vertiginosas como, o nosso sistema solar a 30 kilómetros por segundo, ou o mesmo que 1,800 kílómetros por minuto. 
Então sopro o balão e lhes mostro como o universo está a expandir-se e nele tudo a afastar-se de tudo mais, ficam então olhar para mim, cravados no seu interesse genuino por esse universo lá fora que nos rodeia e domina. Alguém sugere se o universo irá arrebentar como o balão. Sorrio para explicar que não, que os cientistas julgam que o universo ou vai continuar a expandir até gelar, ou voltar ao principio e a um ponto de espaço e tempo zero, mas que não se preocupem, não estaremos à roda quando se der esse processo. A seguir, tomamos então uma folha de papel especial e peço para que duas ou quatro crianças a segurem. Deixo cair então uma bola de berlinde sobre a tal folha para explicar a força de gravidade e o facto de que , no espaço a partícula mais pequena que exista pode causar a distorção desse espaço fazendo com que se afunde. Por isso, o universo todo ele é feito de formas em remoinho e espirais como aqueles que se consegue em qualquer esgoto. 
Afirmo mesmo que o universo está-se a ir pelo esgoto abaixo e que os "Black Holes", ou Estrelas Negras , não passam do espaço que devido ao imenso peso de uma estrela se afundou ao ponto da luz de lá não sair em nossa direcção , mas do fundo como de uma chaminé indicada para cima, por isso o facto de julgarmos o haver aí um orificio.

Aviso-os, que à noite quando observam o espaço não se iludem, com a paz e silêncio das estrelas. Elas todas lançam-se no espaço a grandes velocidades entre o ruído enserducedor de como se de vulcões, ou trovoada que não pára. Mostro-lhes mesmo dentro de um saco de rede, uma rocha vulcância e indico-lhes o facto que no espaço tudo encontra um nicho, ou bolso e quando o assim acontece, faz com que toda a matéria à roda caia dentro ou se encontre num centro, de forma que no fim os átomos debaixo de fricção se incendeiam, formando uma estrela novinha em folha. Peço às crianças para esfregarem as mãos. Pergunto-lhes o que sentem. Contentes, informam-me que as mãos ficam a arder. Com isso lhes invidencio o principio das estrelas e a força termonuclear e como de matéria inerte, surgem as nebulas e as estrelas de enorme potência que pululam o espaço. Com três balões passamos, então a estudar a cor das estrelas e a aprender que quando são novas, as estrelas têm uma tonalidade azul-a cor da chama mais forte. Depois, como o nosso Sol, essa chama passa ao amarelo, mas que um dia, daqui a mais ou menos cinco milhões de anos, se tornará um gigante vermelho e se apagará depois de ter espalhado todo o seu conteúdo pelo espaço adjacente fora, deixando no centro o que chamamos um "white dwarf", um "anão branco" que pode, no caso de uma estrela mais potente que o Sol, explodir e tornar-se uma nova ou super-nova, ou simplesmente extinguir-se e tornar-se num "Black Dwarf" ou "Anão Negro" na maioria das estrelas, como o caso de estrelas menos potentes, e que tudo volta a repetir-se denovo num ciclo sem parar-é a vida das estrelas.
Depois aprendemos que o universo é composto de só apenas um terço de estrelas-a maior parte do universo matéria negra, "Black Matter, " que não dando luz, são os intestinos do universo na maneira em como deles se criam as estrelas e planetas, toda a mecânica do espaço em toda a brida pelo vácuo fora. Com uma tigela de alumínio cheia de bolas de berlinde em movimento, mostro-lhes como o sistema solar se trata de um recôndito onde o Sol faz centro e cujo o bordo é delimitado por cometas numa zona denominada como o cinto de Oort e que daí se despenham toda a vez que uma onda de gravidade os impulsiona. Uns conseguem um ritmo regular, como o cometa Halley, o Hale-Bopp, etc., mas outros menos fortunados podem apenas colidir com o que quer que lhes mete em frente, especialmente na zona de Jupiter onde existe uma barreira de asteróides gigantes que de uma maneira ou outra nos protegem da maior parte de projectis vindos do espaço lá fora. Há apenas dois anos, lhes informo, um desses cometas até se lançou contra o planeta Jupiter, e há outros que na sua queda para o interior se arremessam para o interior do Sol e de lá nunca mais saiem. Falando do Sol, explico que o nosso Sol, é uma ingénua e insignificante estrela nos arredores da Galáxia onde habitamos, e como qualquer outra estrela se comporta com explosões thermonucleares constantes que lhe dão vida e vigor. Afianço-lhes que o fenómeno de El Niño, ao contrário do que todo o mundo parece julgar, não é só o resultado das asneiras humanas, mas sim também efeitos da influência do próprio Sol, que há mais ou menos dois anos sofreu umas certas alterações e que essas afectam sim o clima sobre a terra, mesmo a própria constituição interior da Terra, quer o aceitemos ou não.

Antes de entrarmos no planetário por fim, peço para me identificarem uma estrela, se com cinco pontas como na Bandeira Americana ou se redonda como os faróis de um carro. Depois do erro geral, mostro-lhes uma foto do Sol e pergunto-lhes se o Sol tem cinco pontas. Riem-se divertidos. De certo que toda a gente sabe que o Sol é uma esfera. De certo também que todas as estrelas são esféricas-a forma mais comum dos corpos celestes. Digo-lhes, que as cinquenta estrelas na Bandeira Americana são um belo erro e ilusão, visto que as estrelas de cinco pontas só o são porque a nossa vista não abrange longe, da mesma maneira que quando à noite nos nossos carros ao olharmos carros longe julgamos também ver estrelas nos faróis dos carros, mas que ao esses se aproximarem, notamos que não há nenhum farol de carro com cinco ou qualquer outra ponta---isso tudo prova que a nossa vista é limitada quando se trata de distâncias grandes. Que por mais que vejamos somos limitados no que vemos.
Depois falamos sobre a distância das estrelas e como tudo é tão longe que mesmo à velocidade da luz, 186, 000 milhas por segundo, ainda assim para a maior parte das estrelas não veloz bastante para serem atingidas de um momento para o outro. Medindo em anos de luz, 6 trilhiões de milhas por ano, Proxima Centaur, a estrela mais perto depois do Sol estando a quatro a cinco anos de luz, e Sirius a 8 a 9 anos de luz, as estrelas mais perto de nós depois do Sol. Tudo mais em centenas de anos de luz, milhares e milhões-distâncias que nenhuma máquina humana alguma poderá transpôr. Faço-os observar que quando olham o céu à noite, estão a olhar como para um album de família, isso é para a luz das estrelas como elas eram há séculos ou milhares de anos, um céu passado, morto já em parte--outro. O céu de hoje só daqui a séculos é que poderão observar. 

Entramos no fim desse primeiro encontro no exterior do recinto do Starlab, deixando ficar atrás os sapatos que tiramos para evitar estrago ou que no escuro do interior alguém se magoe. É como se ali se tratasse de uma mesquita, onde ali estejamos para orar.

Depois, atravessamos um tunel que nos leva ao interior, onde no centro se encontra um projector. Depois de todos entrarem e se sentarem no bordo interior dessa abóboda que é a replica do interior do nosso planeta, falamos sobre o mar de ar em que vivemos, como a luz ao entrar nesta bolha que é a atmosfera, se espalha produzindo o efeito do céu azul no alto ou na superfície desse mar de ar. À noite na ausência do Sol e da sua luz, então deparamos com o universo. Assim a atmosfera da terra é a nossa primeira máquina. É através dela que a na terra a luz se divide do escuro, quando no espaço tanto a luz como o escuro vivem lado a lado, parte do mesmo-e Deus disse haja luz.
Na Lua, por exemplo, todos os dias, são dias lindos de Sol a brilhar, mas ao mesmo tempo noite belas de estrelas a brilhar conjuntamente. É assim lá fora. É assim aqui neste planeta muito especial. Com uma lanterna de laser aponto para o chão e o ponto mais alto do interior, informando-os que são apenas 550 kilómetros de distância até ao cimo e ao espaço nocivo lá fora onde existem ondas de raios x e micro-ondas que nos poderiam assar como perús num forno se não nos protegesse a atmosfera. Refiro-me também à distância de onde moramos a Paris e faço-os comprender que tal distância não passa de um filme frágil, tão curto como de onde estamos a Paris, uma viagem de cinco a quatro horas.

O programa começa então com o céu como os Índios o viam. Primeiro mostro-lhes como no principio da Terra, o planeta era um paraíso, em como devido ao eixo da Terra estar direito, só haver uma estação no ano em que evoluiram toda a qualidade de animais e plantas, como se a nossa Terra fosse um ovo, quentinho ou uma estufa ond e à noite se conseguia o efeito de um Carroussel, de estrelas à roda de uma estrela central, como exactamente no Polo Norte hoje em dia . Depois falo-lhes do asteróide que mudou tudo com a sua aproximação muito perigosa da Terra; como os dinosauros desaparecerem devido a isso e como passamos a ter as quatro estações. Desde essa altura o eixo da Terra ficou inclinado-então demonstro isso com o projector.
Adicionamos o movimento das estrelas e colocamos uma música suave como fundo. Ali estamos como dentro de um ventre de uma mãe aprendendo sobre a realidade do espaço, o pai infinito que deparamos sobre o simples estofo de material sintético que dá a essa abóboda a qualidade de qualquer instrumento da NASA, um algo aspacial. Ali dentro desse ovo gigante no meio da Biblioteca ou às vezes do ginásio, partimos em viagem ao espaço de altos e baixos como num carroussel Russo - A Roller Coaster do espaço onde abundam as histórias dos deuses, e heróis tanto de Gregos como de Indios.

É aí, rodeado do fascínio de crianças que pergunto a mim mesmo, e como podem alguns homens agir comos os porcos-afocinhar os sentidos no dia à dia e não aceitar maravilhas como essas, onde tudo é possível.
Ali no escuro onde impera o silêncio de crianças que mal respiram e só se houve ao fundo o motor da ventoina que mantêm esse recinto, penso - estas ainda creiem e ainda esperam, ainda sonham. Com eles no curto espaço de quarenta e cinco minutos vamos de uma projecção à outra e quase sempre despertamos para a realidade quando lá fora um outro grupo falando alto e excitadamente espera para que saiamos logo. Depois voltamos a acender as luzes e damos uma volta ao recinto entre o "Wow!" e "Awsome!", chegamos de uma viagem pelos caminhos das estrelas e de dentro dessa abóboda gigante saiem falando e rindo ao mesmo tempo que calçam os sapatos e vão `as suas vidas e logo a seguir mais outro grupo e partem assim os filhos das estrelas--- encantados. 
Num mundo de crianças rebeldes, revoltadas, encontro a qualidade inocente, a felicidade extraída dos seus próprios sonhos de infinito. 
À tarde correm para mim com as famílias e sei que de algum modo fiz no seu pequeno universo de aprendizagem uma mossa que será o seu mundo, o seu sistema solar da fé no maravilhoso, no milagre do espaço e da vida que pulsa na matéria e isso me impulsiona às duras horas de preparação, pois vale a pena.  

(Por Caminhos das Estrelas)
Para Continuar

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



Por Estradas e Caminhos do Pensamento. Cosmologia dos Indios Americanos na Terra das Estrelas

 


Pelas Estradas do Pensamento - Cosmologia dos Índios Americanos


Habituamo-nos a pensar dos Índios Norte Americanos como selvagens sem conhecimentos alguns, povos ignorantes, semi-nus e deprovidos de cultura. Contudo, ainda antes da chegada do homem de pele branca ao novo mundo, já tinham eles refinado o ópio e morfina usando-os como são usados hoje nos melhores hospitais. Eles eram também capazes de curarem infecções com aplicações de barro que continham penicilina em estado natural. Conheciam também maneiras de aliviarem as dores de cabeça pelo uso de salicilato que extraíam dos testículos de castores. Da planta denominada como dedaleira, extraíam a digitalina que usavam para curar problemas cardíacos. Isso tudo conseguiram numa época em que na Europa ainda se procediam a sangrias para se remover espiritos maus.
Eram portanto sem o terem havido sido reconhecidos, excelentes cientistas, astrónomos e médicos.

Num mundo cada dia, cada vez a encolher mais, quando no shuttle ou vaivém espacial, reconhecemos a verdadeira pequenez do nosso mundo, é que podemos melhor compreender esse espírito dos Índios, o seu respeito e reverência pela natureza, a sua natureza grandíloqua que percebia a fragilidade e santidade da natureza e do mundo que o reodeava, alguém capacitado da sua dimensão no plano da natureza e vivia de acordo com leis naturais tão essenciais como a própria vida.

Quando apresento o Starlab, um planetário portátil, identifico-me com esse espirito simples, mas grandiloquo, na maneira em como Starlab nos oferece um sentido verdadeiro do nosso globo e do oceano de ar que nos rodeia, onde facilmente nos capacitamos que este mundo é uma pequena tenda ou barraca de campanha estendida sobre a superfície de um planeta, que nem é o maior do sistema solar aí também desenvolvemos uma maneira de olhar para este planeta de uma forma responsável e amadurecida, que não o espírito de amebas amorfas e destituídas de inteligência que é a civilização a que pertencemos, onde quem come, quer comer mais, e onde quem mata e emporcalha, mais prestígio e Lebenraum consegue para si e os seus e até mais respeito de todos os outros da mesma espécie.

Invariávelmente portanto, começo a apresentação sobre as constelações com um reflector que indica algumas das constelações como os Indíos as envisionavam. Para eles, o firmamento era sagrado. Assim como hoje usamos os computadores ou os livros e aí registamos as nossas crenças e maneiras de pensar e de agir, para a mente do aborígene Americano, as formas que julgavam ver no céu, eram associações de idéias, o seu écran gigante de onde estavam escritas as lições de moral e valores intrínsecos a toda a sua realidade. Para ele o mundo do firmamento era um mundo invertido a este, onde as árvores e seus galhos com todas as ramificações apontado para o fundo como se a superfície de um lago vista do fundo do mesmo lago, na óptica dos peixes. No Inverno certas constelações desapareciam da planície do firmamento, assim como qualquer guerreiro na procura de melhor erva e melhor clima (Índios Pahute). Toda a memória de gerações ficava assim ali registada como um livro de história, ou uma Bíblia. 

A comologia das tribos dos Zunis, explica o principio das coisas da seguinte maneira:

No princípio o Pai Sol que vivia no espaço e do espaço podia enchergar tudo, notou que o mundo por todo o lado estava coberto de água. O Pai Sol então esfregou as mãos e delas obteve dois pedaços de pele. De seguida, ele tomou um desses pedaços e rolou-o numa esfera que atirou para a água. A esfera absorveu muito da água que cobria o mundo e transformou-se na Mãe Terra.
A seguir, ele tomou o segundo pedaço da pele das suas mãos e de novo lhe deu a forma de uma esfera. Atirou-a para a água que ainda cobria partes do mundo, e essa esfera com a primeira absorveu toda a água que restava e se transformou no Pai Céu. Como a Terra, o Pai Céu é composto em grande parte de água-especialmente quando chove e pela côr azul que possui.

Mais tarde, a Mãe Terra e o Pai Céu tiveram filhos. Nós, todos os seres sobre a Terra somos seus filhos, e por isso também somos compostos em parte de água, como se nota quando chorámos e como se nota quando os bébés nascem.

A Lua, para as tribos de Iroquois era a esposa do Sol, o qual zangado com ela se afasta dela, mesmo se opõe a ela no grande salão do firmamento. Ela desfaz-se e desaparece por fim, mas a Tartaruga que apoia o firmamento e que é sua amiga ajuda-a a comer até ela ficar denovo gorda e bonita no céu que é para encantar a vista do Sol, mas o Sol ao vê-la continua a ignorá-la e lá volta ela gradualmente a enfinhar e a desaparecer, o ciclo repetindo-se assim todos os meses.

Segundo as tribos de Algonquin a Lua é uma velha bisbolhiteira que ofende muita gente e importuna Manitou para saber a data do fim da Terra. Manitou em concelho com os anciãos resolveu o caso com a resposta de que a data do fim da Terra lhe seria entregue, quando ela conseguisse fiar um saco onde se pudesse meter a luz do dia para iluminar a treva à noite. Esperançosa de vir a conhecer primeiro que todos a data do fim, a Lua colocou-se com os seus apetrechos de fiar, assim como um tacho com sopa de milho a cozer e por companhia, um gato ao seu lado. Todos os meses, quando ela está prestes a terminar o saco p'ra luz, a sopa começa a ferver e ela tem de meter de lado o seu trabalho. O gatinho que lhe faz companhia, por ordens de Manitou enriça-lhe a meada e solta a luz que ela conseguiu apanhar. Assim a sua bisbolhetice continua e também continua ela sem saber a data do todo o fim, pois que nunca dá cabo à meada e porque há certos factos que nunca poderão ser revelados a ninguém, nem mesmo a Lua.

Para as tribos de Cherokee, Sirius, a terceira estrela mais próximo da Terra, era um cão que encontraríamos depois de morrer, na entrada para a Estrada de Santiago que nos levaria para a Terra dos Espiritos.
Connosco teríamos que trazer um saco cheio de actos de valor e bravura para lhe dar de comer. Se o saco viesse vazio, interdita ficava a passagem para o outro mundo. Se o cão se satisfizesse com o que havíamos trazido, deixava então livre a passagem. Ia-se depois daí pela Estrada de Santiago fora, no fim da qual se encontraria um segundo cão - a segunda morte. A este de novo ter-se-ia de alimentar com que havia restado do primeiro encontro com o primeiro cão, senão--almas penadas, ficar-se-ia para sempre de um lado para o outro entre os dois cães sem poder voltar, nem poder seguir, por toda a eternidade.

A Estrada de Santiago em si para muitas tribos de diferentes etnias, era a ponte que levaria as almas ao Mundo dos Espiritos, mas para os Seminoles da região onde hoje se encontra a Florida, a Estrada de Santiago, tratava-se de uma marcha dos mortos a caminho do Mundo dos Espiritos. Para outros Índios, essa fita de estrelas no céu eram os braços de Manitou Todo Poderoso a abraçar o mundo. Sossegavam-se as crianças que tinham medo do escuro afiançando-as que a Estrada de Santiago se tratava do Pai Céu que as protegia e as embalava do alto.

Quanto à Ursa Maior e Cassiopeia, essas constelações eram para as tribos de Navaho, respectivamente, o Primeiro Homem e a Primeira Mulher. A Primeira Mulher, até por coincidência na forma de um W, certas ocasiões do ano e na forma de M, outras ocasiões. O Primeiro homem era formado pela rectângulo da Ursa Maior e por ironia seguido pelas três estrelas que formam a cauda da Ursa, dando-lhe um aspecto de macaco - ainda que eles o não admitissem. Essas duas constelações circundavam como um carroussel sem parar à volta de uma estrela que eles denominavam como a fogueira de acampamento-que se trata da Estrela Polar, que brilha todas as noites na mesma área escura do firmamento indicando o caminho aqueles perdidos nos bosques ou na pradaria.

Para as tribos Pahute, a Estrela Polar, contudo, é uma cabra montês que se mete por uma montanha acima e conforme avança vai destruindo as únicas orlas de acesso. Assim, não pode voltar para baixo, e por fim ali fica no centro e topo do firmamento sem poder ir mais alto, nem tão pouco voltar para baixo. As outras estrelas à roda são todas outras cabras monteses que dão rodas à montanha para encontrarem um caminho que as possa levar até ao cimo, onde a outra cabra está presa.

Para alguns as estrelas são furos no toldo do firmamento, que deixam trespassar a luz de um mundo de luz que fica por detrás desse mesmo toldo.

Os planetas em si, não tinham muita importância para os Índios que não confiavam na maneira em como vagueavam pelo céu como os lobos pelos campos. Eles chamavam mesmo a ecliptica do céu por onde seguem os planetas como o Caminho de Lobos. Contudo Venus, por ser mais brilhante , julgavam eles que era a irmã do Céu. Mercúrio por sua vez como Vénus , próximo do horizonte tanto de manhã como à noite, tratava-se, por ser mais escuro, do irmão da Terra. De vez enquando passavam um perto do outro e então atiravam setas um para o outro, que constavam afinal de meteoros que se lançam na atmosfera (Chippewa).


Continua na próxima edição


(Estas notas foram obtidas do manual de apresentação de Starlab do Learning Technologies, e por Doris Forror do Walter Schuele Planetarium, Lake Erie Junior Natureand Science Center, Bay Village, Ohio.)

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



Por Estradas e Caminhos do Pensamento. Constelacoes do Indio Americano

 Pelas Estradas do Pensamento - Constelações de Inverno do Indio Americano



Nestas noites escuras de Fevereiro, para quem olha o céu, na zona Sul ergue-se uma constelação denominada como a mais bela e mais nítida do firmamento. Trata-se de Orião, que os Indios Americanos intitulavam de "o da Longa Faixa", ou o "Gigante em Boa Forma /The Slim One ." Encontra-se essa constelação ao avistar-se três estrelas em linha sobre o horizonte. As três estrelas numa linha perfeita a apontar o horizonte formam a "faixa, ou o cinto de Orião. O Ombro do gigante é uma estrela avermelhada chamada de Betelgeuse, ou o ombro do gigante em árabe, e o joelho do gigante é uma estrela azulada que se chama de Rigel.

Para o Indio americano, esse gigante tratava-se de um chefe de tribo, como todos os bons Indios, um exímio caçador. Aos pés do gigante encontra-se um coelho, cujo as pegadas indicavam aos Indios qual a estação de se poder ou não caçar--as pegadas do tal coelho, se apontadas para o alto, indicavam a estação do ano em que a actividade da caça era proibida. Se apontadas para baixo indicavam a estação do ano em que se poderia caçar sem perturbar o equilibrio natural da espécie de animal em causa.

Ace Ecozi, ( Tribo Tewa) esse Gigante, segundo a lenda, tratava-se de chefe de renome de uma tribo de há muitas luas. Como essa tribo era constantemente ameaçada por inimigos vizinhos, esse decidiu-se um dia tomar todo o seu povo e procurar outra zona para viver. Assim o fizeram, escolhendo a paz à constante luta que levavam.  

Iam eles a caminho, quando, a certo ponto, o seu próprio povo desata a barafustar entre si, a guerrear e viver em distúrbio. Notando isso-- junto às duas estrelas a Leste de Orião, ou melhor dizendo do "Longa Faixa", o figura Moisés desse conto Indio, decide parar todo o seu povo e aí fazer o povo tomar uma decisão—a de o seguirem em paz, ou terem que partir em outra direcção. Portanto nessas duas estrelas (dos Gémeos) se encontra o que os Indios denominavam como o "Ponto de Decisão.", e onde o povo da Tribo do Gigante se dividira em dois povos, designadamente um a Norte e outro a Sul (Indios da tribo de Tewa).

Ainda de acordo com as lendas das tribos do Blackfoot, essas mesmas duas estrelas que se encontram a Leste do Gigante, tratavam-se antes, assim como para os Gregos, de dois irmãos gémeos, que se chamavam designadamente de "o Escondido na Cinza" e o "Escondido nas Abas." Isso porque, ao nascerem, a sua mãe os houvera escondido rápidamente, um nas cinzas da fogueira e outro nas abas da sua tipi, para assim os livrar à morte, que lhes era eminente, visto que um inimigo atacava a tribo no exacto momento em que nasciam, e na sua fúria matavam todos que encontravam. A mãe morreu nesse ataque, e assim como todo a população da tribo. Só os dois irmãos, devido à cautela da mãe, sobreviveram.  

Mais tarde viriam eles a chamar-se, um de "Rocha", por se forte como uma pedra. O outro vir-se- ia a chamar de " Castor" por ser ábil com os animais. Como guerreiros famosos ali ficaram aquelas duas estrelas a Leste do Gigante, a chamar a atenção para as façanhas de dois guerreiros cujo a sorte no meio da pior sorte, viria a bafejar e tornar figuras alvo de admiração.

A sul do Gigante, encontra-se uma estrelas, Sirius, que se trata da terceira estrela mais próxima de nós. Por estar tão próxima, a luz dessa estrela o objecto mais brilhante no céu depois do Sol e da Lua. Tanto para os Indios Americanos, como para os Gregos, tratava-se de uma estrela no focinho de um cão que seguia o Caçador Gigante. 

Segundo a crença, ao morrermos, teríamos que atravessar a Estrada de Santiago a cuja a entrada se encontrava esse cão por sentinela. Durante a vida ter-se-ia que acumular obras de valor e façanhas de bons guerreiros e trazê-las num saco do espirito. Ao encontrarmos o tal cão teríamos que lhe matar a fome usando do que se trazia na mochila. Se o cão se satisfizesse com o que trazíamos, deixava-nos passar, senão seríamos interditos ao mundo do Além, por castigo próprio.

Depois, ainda, se conseguissemos apaziguar o primeiro cão, ou a primeira morte, teríamos, que enfrentar um segundo cão, ou uma segunda morte, isso no fim da Estrada de S. Tiago e antes de sermos admitidos ao Mundo dos Espiritos. Se durante a vida tivessemos acumulado o bastante em feitos e glórias, teríamos o bastante não só para matar a fome ao primeiro cão, mas este segundo cão. Se ao contrário, nos faltasse com que alimentar a raiva desse segundo cão, seríamos interditos ao Mundo dos Espiritos e assim ficaríamos a divagar entre os dois cães, sem podermos nem sair, nem entrar, eternamente malditos dos homens e dos Espiritos , entre o primeiro e o segundo cão, na Estrada de S. Tiago (Cherokee).

Paralelamente a Sirius, o Primeiro cão, encontram-se duas estrelas, uma mais brilhante do que a outra e à altura do ombro do gigante. Trata-se de Canes Minor, o que para os Índios da tribo dos Navaho, constava de um porco espinho. Como as agulhas faziam lembrar as árvores com os pinheiros, julgavam eles que essa constelação é que se encarregava de controlar o crescimento e saúde dos pinheiros e todas as árvores da mesma família.

Para o Oeste do Gigante, encontra-se uma constelação em forma de um V, (Touro), que a tribo dos Navaho denominavam como de Xa Sceszina, ou do Deus Negro, o ferreiro do firmamento, o criador da luz e do fogo e todos os desenhos que se vêm no firmamento à noite. Para Oeste dessa constelação encontra-se um agrupamento de aproximadamente sete estrelas, que fazem lembrar sementes espalhadas no universo. Tratam-se das Pleiades que segundo a tribo de Iraquois eram crianças que um dia levaram consigo succotash para comerem. Eles pediram aos pais para fazerem a sua própria fogueira, o qual os pais negaram, por eles não serem crescidos bastante. As crianças ficaram tão enfurecidas, que fugiram de casa e afastaram-se para as colinas onde, fizeram uma fogueira imaginária, à roda da qual começaram uma dança, com tanta fúria, que cedo, começaram a elevar-se na altura. Quanto mais zangados, mais dançam eles e mais alto se elevam. Ao ponto de não poderem já parar, com o risco de se precipitarem das alturas. Assim, essas crianças, continuam na sua dança de zanga, à roda de um fogo imaginário, e ali estão nas noites de Inverno numa roda viva, que não pode parar--não deve parar.

Quanto ao Gigante, Orião, ou o Longa Faixa, segundo os Iroquois, a razão do Sol possuir um arco mais alto no Verão e mais baixo no Inverno, deve-se ao facto de esse Gigante ser um velho, que no Verão por se sentir bem, carrega com o Sol aos ombros. No Inverno, com o frio, por ser velho, começam-lhe a doer as costas e os ossos, e é quando ele deixa o seu filho mais novo que ele e mais baixo, levar o Sol aos ombros. Por isso, no Inverno, a trajectória do Sol possui um arco mais baixo e por isso os dias são mais curtos.

Quanto às outras constelações nas noites de Inverno, as tribos do Hopi, julgavam que "cayote" fora um dia incubido por ordem da primeira mulher, de reproduzir no céu à noite a figura de todos os animaizinhos que vivem sobre a terra. Para esse efeito deu-lhe um saco cheio de pedras de cristal, que ele devia usar par tal função. "Cayote" assim o fez por uns momentos. Desenhou no céu muitas figuras como borboletas, ursos, cobras, coelhos, cães, etc. Mas a certa altura, cansado e farto de trabalhar, decidiu abrir o saco e espalhar o seu conteúdo pelo firmamento sem ordem alguma. É nesse momento, que ele se lembra que havia esquecido reproduzir no céu a figura da sua própria raça. Por isso, os "cayotes" uivam à noite enquanto erguem as suas cabeças para o alto. Procuram na desordem do universo encontrar a sua figura, malogradamente impossível, por sua própria culpa.

Quanto à Estrada de S. Tiago no Inverno, ou Wakim, o Urso, segundo as lendas da tribo do Shoshoni, foi banido para a Terra Dos Espiritos por ter perdido uma luta qualquer que tinha tido. Como falhado, lá se afastou ele pela montanha fora, em direcção ao Mundo dos Espiritos. Chegou a um certo ponto, em que atravessou uma extensão coberta de neve, pela qual ficou todo coberto. Depois aproximou-se do cimo das montanhas e quanto mais próximo se viu do fim da sua viagem, mais veloz passou a mover-se, ao ponto de se elevar no alto. Conforme o fez, sacudiu-se, o que fez com que os cristais de neve que cobriam o seu pêlo, se espalharam pelo firmanento, dando à Estrada de S. Tiago aquele brilho próprio de cristais de neve que se poderá seguir quem quer que fôr em direcção ao Mundo dos Espiritos.

(Do Manual do Starlab, da Learning Technologies de Massachusetts.)

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha