Devaneio Sobre a Bandeira e a Nação …A Fotosintese da Fé …. Estado de Alma … Aquela Taverna …Estradas do Pensamento … Fim de Verao
D. Sebastião-Emigrante
Bandeira verde, encarnada,
Escudo amarelo ao meio -
Esperança que trespassada
O mundo escondeu no peito
Orgulho de homens de guerra,
De vitórias e conquistas,
De castelos, dessa terra,
Por quem deram suas vidas
Se fosse bandeira branca
Com cruz azul como era
Tão mais cor da Pátria mansa
De Sol e paz, seria ela
Tão mais da cor da história
De aldeias alvas, vazias,
Do trigo loiro, memória
D’esperanças, de fé -perdidas
Terra de grei embarcada
-- El-rei D.Sebastião,
Quem fica não tem lembrada
As lutas dessa nação
Nossas vidas assim demos,
Caravelas à deriva.
Pelo mundo fora temos
Cinco quinas, nossa signa!
Contra os canhões não marchamos,
Menos valentes não somos
Deixando a terra lhe damos
Nova terra, novos sonhos
Bandeira cor numismal
Quem te quisera de origem
Com as cores de Portugal,
mar, céu, co’ a cruz branca, virgem
Nação minha emigrada,
Nação minha repartida,
Nova Israel embarcada
Alma minha dividida.
Perante Deus cobre-te e descobre
Qu’ele tanto ilumina como queima
Cada um de nós, cometas, p’ra ele corre
Na sua luz o nosso ser se ateia
Despista-se quem se aproxima muito
Nele se despenha, tomba, despadaça
Para o perceber, basta-se viver no mundo
Com a mesma magia da folha, a mesma graça
A folha que ao Sol seu coração abre
Com a clorofila o faz dar vida à terra
A clorofila, a fé que na gente arde
O transforma em sopro, em atmosfera
Perante Deus, cometas em ignição
Cada um de nós é um instante de espaço em combustão
Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha
Aí vem o peixeiro pela rua fora
Apregoando peixe, “Eh chicharro fresco!”
Brilha um Sol de oiro de manhã bem cedo
Vão de batas brancas as crianças p’ra escola
Sobre um muro pousa um pássaro, mas voa
Logo de seguida, pelo mundo a esmo
Ir com ele, erguer-me alto, o meu desejo
Ser livre voar pelo céu à toa
Pára aqui o padeiro com a sua carroça
Cheira a pão fresco, que divino aroma
Abre-se u’a janela, alguém bate a u’a porta
Lá ao fundo o mar, luzindo se mostra
Manso, até parece que dormindo, sonha
Ali a minha alma se quer tem de volta
Aquela tasca, aquela taverna
No canto ao fundo da nossa rua
Porta de par em par, sempre aberta
Quer houvesse Sol, quer houvesse chuva
Era ali um centro de ameno convívio
De jogo de cartas, de se entrar e beber
Onde se falava alto, se encontrava com um amigo
Se ouviam fados, se fumava com prazer
Onde se ouvia o relato de football
Com vigor e ferpas se discutia política
Onde já quente até se vinha sentar o Sol.
Onde se vinha viver, encontrar-se com a vida
Aquela tasca, aquela velha loja
De cascas de tremoço, pontas de cigarro
Onde eu criança entrava em sobressalto
Para rebuçados comprar, ou qualquer outra coisa
Ali era um centro de façanhas, falatório
De encontros, desencontros, pragas, palavrões
De amizades, negócios, vantagens, serões
Brigas e vanglórias, impudência e ócio
Quem lhe atiraria a primeira pedra?
Quem lá não entrava para provar uns copos
Petiscar ou comprar uma caixa de fósforos
Beber um café, um pirolito, quem era?
Animava a rua, dava-lhe vida e carácter
Sem ela morreria algo- nenhum assobio
Se ouviria ao passar de mulherio qualquer
Encheria a rua só o silêncio e o vazio
Fechando os olhos na geografia da alma
A avisto ali com sua porta vermelha
Onde o Sol à soleira aquecendo brilhava
- Vou daí e entro, para encontrar u’a centelha
Vem entra comigo amigo p’ra jogarmos,
A vida sem tempo num copo provarmos
Imerso num mar de idéias, em silêncio
No escuro do quarto, não consigo dormir
Ouço ao longe o som d'uma estrada, o movimento
O zumbido, rugido de veículos num ir e vir
Cerrando os olhos, submergindo em mim, tento
Deslocar-me ao tempo que vivi a sorrir
Reactivar lugares e gentes, um momento
de felicidade , de vida, de sentir
A vida é sim uma via em sentido único
Ficam-nos nos olhos as lágrimas, o desejo
De se nunca chegar ao fim da viagem
Viver é um passar, seguir um certo rumo
Com os nossos sentidos, nossa alma mesmo
--Cada dia vivido, parte da paisagem
Homenagem a Diana, a Princesa do Povo e Mother Teresa de Calcutta
Partem em forma de V, para terras de luz e calor
Elevam-se no céu no fim do Verão-- as andorinhas
Esta seguindo aquela, todas em linha, direitinhas
Sobem, cheias d'sperança no seu voo de fé e candôr
Irmãs do Sol, como custa o adeus--tão grande a dôr
A natureza toda diz que começa o Inverno, se doiram as vinhas
Atrás ficam as memórias esmagadas -- lagares de sinas
Voam alto, muito alto, para longe em vôo de amor
Almas libertas, almas princesas, almas rainhas,
Seguem no céu entre castelos de nuvens finas
Um rumo fixo, um rumo certo, um rumo puro
Ficamos nós já finda a ceifa, já nua a messe
Com um não sei quê na alma, um peso-prece
Que leve eleva, que leve segue rumo ao futuro
