Ramerrao
Coisas das Ilhas
Cultura de ramerrão
Chegando-se ao Inverno, estes dias cor de chicharros cinzentos com
tonalidades de prata têm uma maneira de condicionar-nos ao aborrecimento,
provocar um tédio enorme. Obrigam-nos a ver o mundo por um prisma pouco
agradável, como se alguém eternamente navegando no meio do Atlântico num
barco de guerra cinzento que nunca mais chega ao seu destino.
Quando antigamente eu apreciava a poesia açoriana pelo seu cariz melancólico
e profundo, hoje em dia, para dizer a verdade, irrita-me essa poesia
merencórica, a monotonia quase fúnebre da literatura, arte e filmes locais.
São sempre temas e liricismo de ramerrão, da qualidade de almas sofridas com
os seus tons de fim de mundo, de barcos, de distâncias, de "Maus Tempos no
Canal", de Gente(s) Feliz(es) com Lágrimas," de mares cavados e de ondas
borrifando a costa, um todo que merece um grande bocejo de tão enfadonhos e
fastidiosos os temas, uma lengalenga à Madredeus.
Que muito mudou nos Açores, de certo que mudou. Basta notar que aqui impera
a globalização. Depois, se no passado Lisboa mandava, dirigia o destino
destas ilhas, hoje é Bruxelas. Longe, no centro da Europa, é essa cidade que
mais ordena, já que o povo para isso pouco faz ou é capaz.
Que há coisas que em nada mudaram, podem estar bem certos. Quando aqui
chegámos há cinco anos, por exemplo, no hotel onde ficámos admiramos o facto
de no quarto de banho haver, como em nenhum outro hotel em que havíamos
estado, além da caixa do lixo, um caixotezinho colocado junta à sanita, o
que nos confundia. Para que seria tal caixotezinho?
Bem, dois dias mais tarde ficámos a saber. Como era hábito, tanto na Europa
como na Améric,a continuámos a pôr o papel higiênico pela sanita abaixo. Um
dia de madrugada, adivinharam, ao puxarmos o autoclismo formou-se uma boa
piscina pelo quarto de banho todo que chegou a atingir o quarto de dormir. O
que estava a acontecer? Chamamos o pessoal de limpezas. Á tarde quando
voltámos ao quarto, estava tudo como devia ser. Tinha passado a borrasca.
No dia seguinte, a mesma coisa. Foi então que nos informaram para depositar
o papel higiénico não dentro da sanita mas nos tais caixotezinhos.
"Quê? Não colocar os papéis nauseabundos pela retrete abaixo?" Muitos
americanos ainda hoje o não fazem. De olfacto extremamente sensível,
indignam-se com a ideia. Por isso é que de vez em quando no complexo onde
habitam, especialmente os que vivem em zonas mais baixas, há as tais
inundações que os fazem coriscar, isso é usar palavras de quatro letras,
quando a água e os resíduos de todo o complexo habitacional lhes entra pela
sanita fora. Não querem acreditar que os canos, os tubos nesta ilha, ao
contrário de lá fora continuam a ser o mais estreito possível e que a única
maneira de evitar o problema de canos entupidos é fazer o uso das caixinhas,
quer gostem quer não.
À noite, quando regresso a casa, sigo por uma rua também estreita, onde por
presunção, ou devaneio colocaram um linha de divisão branca, como se na
maior avenida de Lisboa se tratasse. Como há carros que param em ambos
lados da rua, que por sinal também não tem passeios laterais, obriga a que
sigamos essa linha mesmo por cima dela como se numa pista de vôo se
tratasse. Ao chegar à rua aviso, "apertar os cintos que vamos descolar!"
Como a iluminação da rua é toda ou à direita ou à esquerda da rua, tão à
maneira do pensar dos portugeses na altura em que tal obra foi feita, deixam
a rua numa semi-penumbra, para não dizer escuridão, que torna difícil a
visibilidade à noite. Como os peões na sua maioria vestem roupas escuras, é
quase sempre no último momento que os vemos. Seguir pela tal linha
divisória é muita vezes a melhor forma de não atropelar ninguém, quer à
esquerda quer à direita.
Outra coisa que irrita sobremaneira nesta ilha são os cães. Quando
antigamente usavam-nos para a lavoura e esses quando chegavam a casa de
cansados se deitavam a dormir com os donos, hoje em dia temos cães de raça
que seguem à risca as horas das discotecas até altas horas da madrugada. Só
o nosso vizinho tem três galgos que parecem saídos de um inferno de Dante.
Aliás, quase todos os cães de raça que aqui deparamos são daqueles de se
manter uma boa distância. São os dobermen, os boxers e outros de instintos
caninos da pior espécie, daqueles que só criminosos podem querer ter
qualquer afinidade que seja. Ao contrário do resto da Europa, por comodismo
têm-nos nos quintais onde ladram de uma forma desesperada toda a santa
noite, numa excitação maior por altura das festas, e essas sucedem-se umas
às outras num rosário de folias.
No Bairro de Joaquim Alves, por exemplo, no distrito da Praia da Vitória,
que as pessoas de uma forma pouco cortez denominam como o "Bairro dos
Macacos," os moradores veêm-se em graves apuros devido aos cães vadios que
chegam a atacar as pessoas. Sendo os seus donos inconsequentes e
indiferentes aos problemas que esses animais acarretam, constituem um
problema de sérios agravantes. Depois, como espalham o lixo por todo o lado,
o número de ratos aumentou, alguns tão grandes como coelhos que por todo o
lado se metem assustando as pessoas nas barracas em que vivem. Combinado
com isso, é o ambiente humano degradante de tóxicodependentes, alcoólicos e
marginalizados, cujo falta de civismo leva a praticarem a sua liberdade aos
extremos, tornando o ambiente humano o mais desagradável possível com brigas
domésticas, palavrões de quatro metros, barulho infernal e total desdém
pelos direitos dos outros. Esses problemas tornaram-se tão graves que
forçaram os moradores recentemente a reunirem-se em encontros especiais
para protestaram as condições de vida naquele bairro e procurarem alívio.
Coisas destas ilhas, é também quando Ponta Delgada com certa vaidade anuncia
o "investimento" de 351,000 euros para a iluminação das suas ruas para as
próximas festas do Natal e Angra se vangloria com não sei quantos milhões de
lâmpadas eléctricas que irão tornar as noites em dia por altura do Natal.
Enquanto conduzir nas ruas da zona da Base Aérea Americana das Lajes à noite
faz-nos resmungar e com razão, ou quando os apagões se sucedem de uma forma
enervante, constrói-se um mundo de fantasia à Mickey e Minnie Mouse, à
Disney World, com os cumprimentos dos nossos augustos governantes. Nessa
altura, em tais centros como Angra, Ponta Delgada, Ribeira Grande, Praia da
Vitória, Vila Franca e até na Vila do Nordeste que se engalana com mais
prosápia e luxo do que a própria Paris, será preciso usar óculos pela
noite dentro, tal a poluição de luz.
Lado a lado com o luxo de jet set há uma realidade idiota e ridícula que
confrange. É confrangedor cenas como a de algumas semanas perto do aéroporto
aqui das Lajes. Tratou-se de um acidente de viação em que um cavalo,
daqueles que ainda puxam muitas carroças que vemos nas nossas estradas, foi
violentemente atropelado por uma viatura que, como é hábito aqui, conduzia
a uma velocidade não só homicída-suícida mas terrorista.
O dono do cavalo, podre de bêbado, confuso, em vez de puxar o cavalo para a
berma da estrada puxou-o para o meio da rua. O embate foi fulminante. O
pobre cavalo tombou logo de imediato num relinchar que metia dó. Até um dos
olhos lhe saltou do rosto e retorcendo-se de dor teve que esperar enquanto
as pessoas envolvidas partilhavam de insultos e de palavrões, das mais de
mútuas acusações a nível de gente das cavernas; depois para que a polícia
chegasse e só no fim que o colocassem num camião em direção ao aterro
sanitário onde o haveriam finalmente de o abater, livrá-lo do sofrimento em
que jazia.
A última entre as coisas destas nossas ilhas é mais uma vez alguém ter
comprado pão com uma grande barata por recheio; isso depois de já ter
aparecido por duas outras vezes restos de morganhos, pêlo de ratos, dentro
do pão. É mesmo de nos benzermos.
Assim como com o pão na nossa terra nem tudo que luze é oiro. São cenas de
uma humanidade que pouco se importa ou se preocupa com os outros, tão
preocupados e embebidos, para não dizer embriagados, consigo próprios estão.
Possui-se um narcisismo inane e inútil. É que esta é uma sociedade
inconsequente, alheia e apática a si mesmo, onde falta o civismo inteligente
e capaz que a dignifique. São gentes de hábitos e devaneios megalómanos ou
depressivo-maníacos assim como de atitudes sediciosas que vão do abuso do
álcool, ao desrespeito pelos outros, da mesquinhice à violência doméstica,
da pilhagem descarada à extorsão, de abusos e fraudes de toda a qualidade,
da exploração ao calote, da difamação ao escárnio, até aos abusos das drogas
mais potentes. Um país em fim onde não se respeita lei alguma, nem sequer a
lei da consciência.
Na rota do haxixe estes Açores já têm algo das favelas ou dos "inner-city"
americanos onde se perdeu a honra e a vergonha e tudo se faz porque a moda o
consentiu e o permitiu e o hábito o sancionou, uma sociedade em fim onde a
falta de justiça, de cortesia e educação é o pão nosso de cada dia.
Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores
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