COISAS DESTAS ILHAS

Wednesday, January 31, 2024

Ponta Delgada 


Ponta Delgada, nossa inesquecível, linda cidade,

Quem não se lembra das suas "Portas" de três arcadas?

Da sua formosa baía, com saudade?

Das suas ruas estreitas, bonitas calçadas?


Das suas praças, sua Avenida, sua majestade

De igrejas, conventos, casas apalaçadas?

De estufas brancas a aquarar---do seu alarde

De cal, basalto e ardósia, colinas mágicas?


Quem não se lembra da Matriz, da alta torre do relógio?

Do Senhor Santo Cristo--- baluarte da nossa história?

Do Alto da Mãe de Deus--- "Alfama" de sonho e ócio?


...À frente o mar, ao longe o "Monte da Lagoa"?

---Quem nela viveu a traz presa na memória

Nossa Atlântida de sonhos, pequena Lisboa! 


Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha


José Saramago 


José Saramago-um navio ao longe

Vulto da minha terra, da minha Pátria

Passa junto à linha do horizonte

Um risco de sonho, que a distância apaga


Dono de romances, de palavras em viagem

Que eu mal conhêço-- mas estimaria conhecer

Marinheiro luso à deriva pelo mar da linguagem,

Deixa atrás por presença o meu olhar a arder 


José Saramago, vapôr da Língua Portuguesa

Paquete de terras de Sul, atracado num porto

Firme, aprumado, com uma certa gentileza

Uma certa qualidade da nossa terra, do nosso povo.


De longe lhe envio um aceno em forma de poema

Fico a vê-lo afastar-se na superfície ondulante

Mais um navio que passa junto à minha ilha pequena

Se some, sem se aproximar, segue o seu rumo anelante.


Entre nós fica o mar imenso, depois com o Sol posto

Fica a glória do momento o marulho do mar como um côro

Parabéns! 


Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha - 09.10.98



Fausto Num Episódio da Mosca no Verão 


Eu sou a mosca, a nogenta mosca

Todo o lugar sujo, busco, sobrevôo

Meu alimento - tudo que enjoa, é nojo

Eu sou a mosca que tudo cheira, gosta


Meus filhos têm, sim, a côr do meu sangue

Os deixo com o lixo mais rico e imundo

Quanto mais podre, mais fértil, fecundo

Mais comem e vivem, têm a sorte grande


Sou até o pai do comer sem fome

Como o que vejo, tudo beijo e lambo

Por onde passo, até do mais limpo manjo

Sou o prazer que tudo devora e come


Sou a alma de tudo que é vil e nogento

Do vício ao desejo ou prazer mais sujo

Consigo tudo pela moléstia e o abuso

A carne me chama, só em carne penso


Eu sou a mosca, nasci do saltão

Sou o pensamento que no lixo mora

Transformo o próximo com desprezo em fossa

Na minha imundice sufoca a razão


Na guerra sou eu o mais forte e valente

Medalhas? Tenho-as, sou sim general

Todo o mundo me faz continência, mal

na cabeça de alguém passe até sómente


Na juventude mais na côr de pûs

Que faz de Hitler seu modêlo de mim

Vive o meu sonho, são meus filhos, sim!

Na porcaria mais porca os depûz


Eu sou a mosca, poeta traduz

Para o mundo todo, o que ao ouvido zumbo

Que eu sou o anjo do sujo e do imundo

A noite inteira deixa acesa a luz


Vem daí Fausto, comigo com gôsto

Que eu te dou asas como as minhas, de renda

Para te ergueres, e escreveres num poema

Sobre o meu reino de fartura e gôzo


Vem por estes países onde é puro o orgulho

No tenir do dinheiro, não tenhas não dúvida

Onde ele estiver, está a coisa mais pútrida

A gente mais fina se lho vende ao avulso


Tanto visito o forte como visito o fraco

Tenho a liberdade mais livre que existe

Uma mosca nunca se satisfaz ou desiste

Não há nada não que me tenha farto


Onde houver o homem, Fausto, escuta agora

Há uma riqueza em mau cheiro e em doçura

Eu fui feito à imagem dessa criatura

Fausto, até o bem só o mal o comprova


"Tu és sim a mosca, a maldita mosca

Que me não deixas não no Verão dormir

No teu vôo constante, eterno zumbir

Eu Fausto, me afasto, Deus, minha alma implora!" 


Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha

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