Ponta Delgada
Ponta Delgada, nossa inesquecível, linda cidade,
Quem não se lembra das suas "Portas" de três arcadas?
Da sua formosa baía, com saudade?
Das suas ruas estreitas, bonitas calçadas?
Das suas praças, sua Avenida, sua majestade
De igrejas, conventos, casas apalaçadas?
De estufas brancas a aquarar---do seu alarde
De cal, basalto e ardósia, colinas mágicas?
Quem não se lembra da Matriz, da alta torre do relógio?
Do Senhor Santo Cristo--- baluarte da nossa história?
Do Alto da Mãe de Deus--- "Alfama" de sonho e ócio?
...À frente o mar, ao longe o "Monte da Lagoa"?
---Quem nela viveu a traz presa na memória
Nossa Atlântida de sonhos, pequena Lisboa!
Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha
José Saramago
José Saramago-um navio ao longe
Vulto da minha terra, da minha Pátria
Passa junto à linha do horizonte
Um risco de sonho, que a distância apaga
Dono de romances, de palavras em viagem
Que eu mal conhêço-- mas estimaria conhecer
Marinheiro luso à deriva pelo mar da linguagem,
Deixa atrás por presença o meu olhar a arder
José Saramago, vapôr da Língua Portuguesa
Paquete de terras de Sul, atracado num porto
Firme, aprumado, com uma certa gentileza
Uma certa qualidade da nossa terra, do nosso povo.
De longe lhe envio um aceno em forma de poema
Fico a vê-lo afastar-se na superfície ondulante
Mais um navio que passa junto à minha ilha pequena
Se some, sem se aproximar, segue o seu rumo anelante.
Entre nós fica o mar imenso, depois com o Sol posto
Fica a glória do momento o marulho do mar como um côro
Parabéns!
Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha - 09.10.98
Fausto Num Episódio da Mosca no Verão
Eu sou a mosca, a nogenta mosca
Todo o lugar sujo, busco, sobrevôo
Meu alimento - tudo que enjoa, é nojo
Eu sou a mosca que tudo cheira, gosta
Meus filhos têm, sim, a côr do meu sangue
Os deixo com o lixo mais rico e imundo
Quanto mais podre, mais fértil, fecundo
Mais comem e vivem, têm a sorte grande
Sou até o pai do comer sem fome
Como o que vejo, tudo beijo e lambo
Por onde passo, até do mais limpo manjo
Sou o prazer que tudo devora e come
Sou a alma de tudo que é vil e nogento
Do vício ao desejo ou prazer mais sujo
Consigo tudo pela moléstia e o abuso
A carne me chama, só em carne penso
Eu sou a mosca, nasci do saltão
Sou o pensamento que no lixo mora
Transformo o próximo com desprezo em fossa
Na minha imundice sufoca a razão
Na guerra sou eu o mais forte e valente
Medalhas? Tenho-as, sou sim general
Todo o mundo me faz continência, mal
na cabeça de alguém passe até sómente
Na juventude mais na côr de pûs
Que faz de Hitler seu modêlo de mim
Vive o meu sonho, são meus filhos, sim!
Na porcaria mais porca os depûz
Eu sou a mosca, poeta traduz
Para o mundo todo, o que ao ouvido zumbo
Que eu sou o anjo do sujo e do imundo
A noite inteira deixa acesa a luz
Vem daí Fausto, comigo com gôsto
Que eu te dou asas como as minhas, de renda
Para te ergueres, e escreveres num poema
Sobre o meu reino de fartura e gôzo
Vem por estes países onde é puro o orgulho
No tenir do dinheiro, não tenhas não dúvida
Onde ele estiver, está a coisa mais pútrida
A gente mais fina se lho vende ao avulso
Tanto visito o forte como visito o fraco
Tenho a liberdade mais livre que existe
Uma mosca nunca se satisfaz ou desiste
Não há nada não que me tenha farto
Onde houver o homem, Fausto, escuta agora
Há uma riqueza em mau cheiro e em doçura
Eu fui feito à imagem dessa criatura
Fausto, até o bem só o mal o comprova
"Tu és sim a mosca, a maldita mosca
Que me não deixas não no Verão dormir
No teu vôo constante, eterno zumbir
Eu Fausto, me afasto, Deus, minha alma implora!"
Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha

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