Momento de Ilha
Momento de Ilha
Assobiando pela estrada fora
Vai um camponês-- aos ombros um sacho
Com uma aguilhada conduz o gado
Descalço vai, mas nem se importa
É um paraíso a sua ilha toda
Mas vai absorto, distraído, alado
Sonhando um dia poder mudar seu fado
Espera poder ir-se dali embora
Para terras longes, para terras grandes
Onde melhor sorte possa encontrar
Fugir ao destino que o prende ao mar
Ouvem-se p'los pastos chocalhos distantes
Bucólica a terra de encantos tais
Não o deixará, dele não sairá jamais.
Ia de tamancos p'ra fonte
A mulher da minha terra
O tempo lhe apagou o nome
Mas não, nunca a graça dela
Vi-a trazendo duas talhas
Ligeira p'la rua abaixo
Tantas, tantas madrugadas
De quanta lida e cansaço
De manhã de madrugada
De avental, passo ligeiro
Que bonita, que engraçada
Que ternura no seu geito
Foi um dia ainda jovem
Que à fonte se veio encontrar
Com aquele que foi seu homem
Com quem iria casar
Junto à fonte o seu primeiro
Seu primeiro beijo deu
Transbordava o pote cheio
-Como de tudo se esqueceu
Naquele momento da fonte
Naquele momento de vida
Embarcou e foi p'ra longe
Seu coração de batida
Depois entra e sai dia
Trouxe um dia um filho seu
Se tornou mãe a rapariga
Que na fonte a talha encheu
No lamento do encher de água
De qualquer bilha de barro
Juntou com lágrimas sua mágoa
Amarga mágoa --seu fado
Passaram-se anos atrás de anos
Tornou-se triste, cansou-se
A canção da água, seus prantos
Suavizavam, calou-se
Atado o seu lenço à nuca
Passava como fidalga
Na volta molhava a rua
Ela mais sua velha talha
Secou-se já essa fonte
Mas não a memória dela
A sua alma foi p'ra longe
Mas ficou sim a história dela.
A vida é um forno
Onde se coze o pão
Padeiro é o fôlego
Fermento o coração
Amassado com gosto
Com esforço e paixão
--Cada broa é um consôlo
Promessa, missão
O espírito é a massa
A côdea é o corpo
Conforme a chama
Sai duro ou sai fôfo
Conforme o ardor
Sai anjo ou diabo
Fresco e bom p'lo amor
P'lo vício queimado
Padeira, Padeira
De rosto abrasado
Olhai a braseira
tomais de nós cuidado
Este aqui já se abre
A brasa o queima
Padeira, comadre
Vem ao forno, espreita
Traz p'ra cá a pá
Padeira depressa
Que na hora está
Do pão ir p'ra mesa
Lavrador, lavrador
Prepara-me o vinho
Que seja do melhor
Que seja do mais fino
Sobre esta minha mesa
Coloca a toalha
Sobre ela a candeia
De luz e de graça
Fresquinho o pão
Mais uns bolos de massa
Depois da procissão
Sabe bem vir p'ra casa

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