COISAS DESTAS ILHAS

Friday, October 27, 2006

D.Joao V

Coisas destas ilhas
Viva D. João V!

Que as ilhas dos Açores em apenas três décadas se transformaram em algo
muito diferente é uma realidade que se vive no dia à dia. Estes já não são
não os Açores que conhecêmos quando, emigrantes, daqui saímos. Esta é uma
nova cultura, um novo povo e uma nova terra.
Que algumas dessas modificações nos enaltecem como açorianos e dão à nossa
terra um nível de vida que sempre ambicionámos, é uma realidade.
Abandonados no meio do mar, damos provas de um espírito empreendedor que
sabe bem o celebrarmos, pelo menos que temos bom gosto e que sabemos o que
queremos, sabemos. Provamos que somos também capazes de irmos mais além, de
apostarmos em qualidade.
Como poesia e elogio pouco corrigem, porém, certas outras realidades que nos
fizeram marcar passo na história, e nos ameaçam a qualquer momento
lançar-nos à dança de caranguejos, há que reconhecer que os dados são dados
e que, apesar de tudo, somos a região mais pobre de Portugal. Portugal que
já em si também se pode considerar uma grande ilha dentro do contexto
europeu - o mais pobre, aquele de pedintes, numa sociedade rica, que produz
a sua riqueza e desdenha aqueles que o não fazem.
Os políticos melhor do que ninguém conhecem essa realidade, quando, em
Bruxelas ou Strasbourg, são confrontados com o tratamento fleumático de
alguém que nos olha com a expressão de "Quem são estes e que fazem aqui?"
Muitos até, sem sombras de dúvidas, ouvirão comentários como "Portugal faz
parte da Europa?" isso como se fôssemos os meninos da rua, aqueles sempre
dispostos a pedir, mas raremente prontos para dar.
Afastados séculos do centro da Europa, protegidos pela nossa associação com
a Inglaterra, desenvolvêmos um carácter autonómico, quase desligado do resto
desse continente. Afinal, não foram os nossos próprios reis que, à menor
ameaça vinda de França, rapidamente fizeram as suas malas e voltaram as
costas a Portugal, indo-se proteger no Brasil? Deixaram assim a nossa terra
e o nosso povo à mercê dos caprichos dos ingleses. Que fomos protegidos por
essa aliança, de certo que sim, mas isso ao custo da pilhagem descarada, do
abuso e vexame que a história não reza. Não foi essa mesma Inglaterra que,
mais tarde, nos dá um ultimato em relação ao Mapa-Cor-de-Rosa, na África, a
nossa ambição de unir Angola a Moçambique? Com amigos assim, quem precisaria
de inimigos?
Depois houve D. João V, que à roda do ano 1728, à socialista, esbanjou toda
a riqueza do Brasil num meio de vida de gozo, luxo e ostentação
incomparável na Europa. Foi um reinado de devassidão e de falta de prudência
que nos pôs de rastos. Não havia orçamento nem prudência no gastar. Com ele
vigorou um espírito anárquico, inane que transformou Portugal no país mais
pobre e mais tolo da Europa, isso numa altura em que o ouro e os diamantes
do Brasil não paravam de chegar aos cais de Lisboa. Vivia-se à grande e à
francesa, de modo que as receitas não davam para os gastos. A corte
portuguesa era a mais luxuosa e requintada da Europa. Fizeram-se exageros de
bradar aos céus. Muita dessa riqueza foi parar a Roma, a Londres a Paris.
Donos de costumes faustos, vivia-se nesse reinado como se semi-deuses
fossem.
Essa foi a era do tratado de Methwen, em que mais uma vez a Inglaterra nos
levava a melhor. Éramos muito arrogantes, megalómanos, superiores a todas
essas insignificânias. Enquanto isso, as riquezas do Brasil passavam para os
cofres da Inglaterra. Éramos os seus melhores fregueses, os mais dóceis e
rendosos, uma quase província desse país que nos levou a melhor, graças à
nossa estupidez.
Essa tendência ao desperdício, o gosto pela grandeza e pela imponência,
apoiada no vício, ócio e, como o povo diz, "peneiras", infelizmente, é ainda
a prata da casa. Vivendo nos Açores, eu não vejo pobreza, antes pelo
contrário acuso uma opulência que nem na América, nem no Norte da Europa.
Continuamos a viver além das nossas posses, a viver fantasias subsididadas
pela Europa que desbancam qualquer país da Europa. Apostados num cosmético
de gandeza e luxo, esbanjamos no desnecessário, no trivial.
O Euro'2004, por exemplo, está aí à porta. Que se gastaram milhões sobre
milhões de euros para satisfazer um sonho cobrado à larga, à D. João V, mais
que certo. Temos os melhores campos de futebol da Europa. Entretanto, os
nossos hospitais pecam pela limpeza e eficiência. Até de ratazanas e
baratas fora de controle se ouve em hospitais da metrópole. Os serviços de
saúde são, sem sombra de dúvida, dos piores da Europa.
Quantos médicos usam de uma brutalidade à la Doutor Mengel? Sem
concorrência, assomem uma insolência bárbara, pouco se preocupando com o bem
estar dos seus pacientes, especialmente se eles são idosos e se estão para
morrer. Errar é humano, mas irra quantos erros são precisos para corrigir
Portugal?
No campo da Justiça, da mesma forma, temos serviços que remontam à época da
inquisição, dos mais péssimos da Europa. Falta-nos a tecnologia, os
profissionais, os meios devidos para que o sistema funcione como devia
funcionar. Assim, estamos no país da injustiça, da ineficácia do sistema
jurídico, onde ninguém respeita a lei; para quê, se eles são os maiores
foras-de-lei? Chamar a polícia é uma graça. Os cães fazem um melhor serviço
do que eles, e cães há-os por todo o lado. Basta prestar atenção à noite e
a ilha parece um grande canil. Há noites que nem se prega olho de tanto
ladrar na vizinhança.
As nossas estradas, sim, são melhores, mas para logo serem acometidas pelo
espirito de baratas homicidas que na sua sofreguidão e disparates de
dextreza, tornam essas mesmas estradas em palcos de morte e selvajaria. É
uma guerra civil latente, uma arena das mais sangrentas e mais desumanas,
atitudes onde o respeito e a cortesia pelo próximo quase não existe.
Depois, aqui por exemplo o ditado, "quem casa quer casa," é seguido à risca.
A maioria dos novos casais não se satisfaz no arrendar um apartamento ou uma
casinha como se faz lá fora. Quase sempre a compra da casa antecede o
casamento. É a praxe. Depois as listas de ofertas são de rir. Os
convidados são apresentados com uma lista de itens a contribuir, entre os
quais, o frigorífico, fogão, a televisão, e outros electrodomésticos, já não
só o atirar de arroz simples dos nossos tempos. O cidadão comum exige o
luxo, envergonha-se com o menos do que faustoso. O pão nosso de cada dia
aqui pouco valor tem se não for coberto de verniz, prata ou euro.
Se antigamente se podia ter um vaso da noite, um bacio por cada quarto, hoje
a praxe reza que uma casa nova tem que ter pelo menos um quarto de banho
para cada quarto de dormir. Não é de estranhar os palácios que se fazem. A
importância de cada bolsa é assim desse modo medida em termos de retretes.
Fala-se muito, sim, de uma crise.
Que essa crise chegou aos Açores, chegou sim para quem, como eu ganhando
dólares, vê o valor do seu dólar reduzido, quando tudo duplicou em valor.
Os açorianos em si continuam vivendo como se nada fosse, ao ponto de eu não
acreditar em nenhuma crise, como os jornais e os meios de comunicação estão
a tentar convencer. Não pode ser real. Não há não crise. Viva a D. João
V! Viva!

Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores





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