COISAS DESTAS ILHAS

Friday, October 27, 2006

Diga-se a Verdade

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Coisas destas ilhas
Diga-se-lhe a verdade

Ouço dizer que o Sol-Mar, na Avenida Marginal em Ponta Delgada está em
renovações. Ainda bem! Há dois anos, quando por lá passei, anotei que,
apesar do visual esteticamente igual àquele de tantos mini-centros
comerciais por esse mundo fora, ali havia uma estrutura que, por falta de
segurança ao público, mereceu, desde o príncipio, a minha atenção.
Tratava-se de uma piscina ou tanque interno que, confesso, dava ao espaço do
rés-do-chão uma nota agradável, só que desprovida de qualquer vedação,
murinho ou até sinal de aviso, era uma autêntica armadilha pública.
Acontece que enquanto esperava pela minha esposa ali um dia no Verão,
resolvi sentar-me num banco que ficava mesmo junto a essa piscina, isso é um
lagozinho interior. Lembro-me, ao aproximar-me do banco, pensar para com os
meus botões: "Tenho que ter cuidado para não escorregar e cair na poça". A
seguir, sentei-me com o meu filho a apreciar o ambiente. Ali estivemos um
bocado de tempo até ver aproximar-se da piscina um grupo de senhoras
estrangeiras idosas, acompanhadas de um homem de meia idade. Vinham todos
com boa disposição, sorrindo discontraídas. Aproximaram-se do tal lago onde
estavamos sentados. Uma das senhoras, por acaso transportando uma bengala,
era a primeira da frente de um linha delas. Ao chegar ao banco onde
estávamos sentados, recuou para falar com a que vinha atrás. Faltou-lhe o
pé, escorregou e tombou de costas para dentro da tal piscina. Confirmado os
meus receios, saltei para o tanque a fim de a ajudar. De costas, ela
tentava-se colocar numa posição mais propícia. Pondo-me por detrás da
senhora tentei erguê-la; o que não foi tarefa fácil. As sandálias que eu
calçava escorregavam sobre o azulejo do fundo e pouco me ajudavam a erguer
aquele grande peso. Um dos acompanhantes da senhora, passado o momento de
surpresa, de imediato também se colocou dentro da piscina para me ajudar.
Como no rio Jordão, as nossas três pessoas foram logo motivo da atenção
geral. Toda a gente se debruçou no primeiro e segundo piso para seguir tal
estranho baptizado naquela hora da manhã. Finalmente, com um pouco de
empurrar e puxar, lá conseguimos erguer a pobre da senhora que, toda
alagada, confusa e embaraçada entre "dankes" atrapalhados, afastou-se, para
uma boa mudança de roupa, pressuponho.
Esta semana, nas notícias da televisão, tomei conhecimento de um caso
flagrante relacionado com a ponte Vasco da Gama. Segundo a reportagem,
durante a sua construção duas crianças cabo-verdianas perderam a vida devido
à negligência dos construtores que, ao deixarem uma vala profunda aberta a
céu aberto, sem quaisquer medidas de prevenção, contribuíram para essas
mortes. Com a chuva, a vala encheu-se ao ponto de ali se formar um lago de
considerável profundidade onde uma criança ao brincar tombou. Para a salvar,
a irmã mais velhinha, ali presente, atirou-se à água e o desfecho final foi
o terem ambas as crianças sucumbido. Sem qualquer cerca que viesse a
prevenir e evitar o pior, o pior aconteceu. Como sempre, ninguém assume
responsabilidades. A mãe está envolvida com os tribunais para, na sua dor,
buscar justiça. Como é de prever, num país onde a justiça não é só manca,
mas indecentemente fugaz e torpa, a batalha não é fácil.
Esse tal espírito falho em descrição, infelizmente, é ainda um atributo da
nossa sociedade que, apesar de um visual do século vinte, apresenta uma
falta de espírito patética no ramo de prevenção e de segurança pública.
Basta referir-me à via rápida aqui na Terceira que, torta desde o principio,
tem sido juntamente com a falta de descrição dos condutores que voam dentro
dos seus carros, a causa número um dos muitos acidentes nessa via - três ou
quatro acidentes mortais só este ano. O piso é tão irregular que temos a
sensação de estarmos a navegar no mar entre ondas ou sobre um corroucel, de
tantos altos e baixos que quase fazem os carros embater contra o chão. Em
dias de chuva forma-se uma toalha de água que torna esse piso um perigo
mortal. Os carros passam a deslizar sobre ela, sem que os pneus toquem no
chão. São necessárias inúmeros acidentes e as diatribes dos meios de
comunicação para que alguém se preocupe com tal e, segundo consta, o
problema data desde o princípio dessa construção, já lá vão mais de dez
anos.
O mesmo diria dos contentores de lixo que metem mesmo quase no meio da rua
aqui no Juncal - uma rua já sem passeios, onde alguns carros passam a
velocidade de bólides raivosos. Como um veículo mal estacionado, a estrutura
de alumínio ou plástico verde obriga que o tráfego ali faça uma
ultrapassagem, tenha que se desviar do tal contentor e dos peões que, sem o
mínimo grau de indignação, por ali também circundam apáticos e aéreos ao
problema. Ninguém se manifesta contra tal aberração .
Mais em frente e na mesma rua construíram uma pizzaria, uma coisa excelente,
só que os clientes, sem um parque de estacionamento viável, bloqueiam a
livre passagem do tráfico naquela zona. Como baratas encurraladas, os carros
amontoam-se para a direita e para a esquerda numa desordem de pasmar. No
escuro à noite, abrem-se portas, despejam-se e enchem-se carros, ao mesmo
tempo que o tráfego tenta fluir até ao fim desse túnel de gente, carros e
desordem, sem tocar em ninguém ou raspar noutros veículos.
Congestionada, a rua parece o interior de um bazar em festa algures nas
Arábias. Fazem-se manobras de Alladin, apita-se, acendem-se as luzes; é um
vaivém e congestionamento realmente impressionante. Então, quando a câmara
permitiu tal empreendimento, não anteviu tal caos?
Em qualquer outro país ou mesmo ilhota, ir-se-ia primeiro estudar o impacto
de tal empreendimento em termos ambientais. Falta a essa obra, pois, um
parque de estacionamento condigno que satisfaça a clientela em massa que ali
ocorre!
Também em qualquer outro lugar dito desenvolvido, teriam instalado um guarda
para dirigir o tráfego e servir de protecção, mas não, nada disso é preciso
aqui na nossa terra; não senhor! Nem lombas para a redução de velocidade
existem, de maneira, que se algum tarado por ali passar a alta velocidade <
o que podem acreditar há gente que o faz, se acutelem os peões, pois, que
por lei (ou falta de lei) ele estará coberto.
É até interessante que medidas como o uso das ³lombas² nos caminhos,
elevações de borracha que se colocam em zonas das escolas para forçar que os
veículos reduzam a velocidade, não sejam bem aceites pelos condutores. No
jornal local, esse assunto foi até motivo de diatribe. Há uns meses atrás,
surgiu um artigo que me espantou de sobre maneira. O tal diário
empenhava-se em defender a opinião dos condutores "fartos das tais lombas"
por essas lhes estarem a "tirar o gosto e o prazer de conduzir". A esse
repto juntava-se um intelectual bem conceituado de Angra que,
surpreendentemente, apoiava a remoção de tais lombas tidas como
"indesejáveis" e impraticáveis. Quando por toda a Europa se faz uso de tais
medidas como meio de domar a ferocidade automobolística e uma precaução em
defesa do peão, aqui nos Açores de uma forma retrógrada, acha-se isso
exagerado e um "incómodo para os condutores". Ontem mesmo o jornal voltava
ao ataque; desta vez contra a polícia que se esconde com câmaras ocultas
para multar os transgressores. De novo a lógica do direito dos condutores de
serem tratados com "democracia" - isso é a democracia de não serem apanhados
em actos que põem em perigo a vida dos outros. Como o povo é que mais
ordena, temos assim um ambiente onde não é a lógica que sempre vence;
aceita-se um sistema ou democracia "talibã" de estradas patético.
Em resumo, enquanto em sociedades mais progressivas se trabalha para evitar
o pior; na sociedade portuguesa (açoriana) o pior acontece a todo o tempo e
até faz casa. Por isso, quando ouço falar do caso de abuso ou "tortura"
na prisão de Abu Ghari por elementos de polícia americanos capacito-me que,
apesar de tudo, o sistema americano, graças a Deus, não sofre da mesma
doença da sociedade portuguesa, que por mais horrendo, a verdade veio ao de
cima e os implicados serão severamente castigados - que vão rolar no chão
cabeças, vão!
Em Portugal quantos abusos, quantas situações que bradam aos céus, ficam
relegadas à inactividade e imparcialidade dos seus cidadãos; esses
acostumados à falta de justiça, de acção, de democracia como devia ser,
continuam a nada ver, a nada ouvir e nada saber. Falta à nossa gente a
coragem cívica de acusar o perigo, o erro ou o descalabro. Existe entre nós
uma maneira de ser milenária em que tudo se aceita, com tudo se conforma,
tudo se permite; uma democracia oca e inculta que nada nos honra,
diga-se-lhe a verdade, especialmente quando os meios de comunicação, que são
quem nos deviam elucidar, num chibantismo bairrista, bajulice comodista, tal
como gatos fartos e gordos, deixam as ratazanas do sistema à vontade para
perpetuar o seu mundo de ratoeiras. Isso é a falta de justiça do sistema
começa com o próprio povo que está-se nas tintas para tudo.

Silvério Gabriel de Melo
Juncal, Terceira

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