COISAS DESTAS ILHAS

Wednesday, November 29, 2023

Conto Retold Tale. Amor de Pai, E’ Amor de Pai

Amor de Pai


Havia num país algures na Europa um nobre, também coleccionador de obras de arte. Era viúvo e tinha um filho único com quem era muito chegado. Juntos dedicavam-se à procura de obras de arte que adicionavam à sua já grande valiosa colecção. Tratavam-se de famosas peças de arte de artistas famosos como Picasso, Van Gogh, Monet e muitos outros que adornavam as paredes do palácio onde habitavam.

Além de amar muito o seu filho, esse nobre sentia um orgulho por esse filho, que, como ele, possuia não só um sentido de apreciação e gosto pela arte, mas tinha um geito e uma habilidade enorme para o negócio de coleccionador de obras de arte como ninguém outro. Assim, o pai revia-se no filho, reconhecendo nele as sua própria qualidade como colecionador de obras primas. Só até o filho lhe concedia um estado de espírito superior ao que sentia pela arte e o negócio. Ele era o seu tudo, a sua razão de viver. Com o filho ao lado ele era o pai e o colecionador mais feliz do mundo. O amor que tinha pelo filho era tão grande que pelo filho fazia tudo e dava tudo que esse queria.

Um dia, porém, no fim do Verão, o país onde viviam envolveu-se numa guerra sangrenta. O filho do coleccionador, como todos os outros jovens, orgulhosamente enlistou-se também nas Forças Armadas para assim defender a sua Pátria.

No decorrer de umas curtas semanas, infelizmente, num dia triste de Outono, o pai recebeu de súbito um telegrama-- o filho tinha desaparecido em acção. Sem saber porquê, o pai sentiu dentro em si o coração arrochar. Tratou logo de contactar meio mundo para que lhe informassem sobre a sorte do seu filho. Ele não podia pensar de uma vida, de um mundo sem o filho.

Nos dias a seguir nem comia, nem dormia, até que lhe vieram informar o que ele já tinha presentido, que o filho tinha morrido, que já não existia mais. Tinha sido abatido por uma bala quando tentava ajudar um colega dele ferido em batalha---o filho que tanto amava não iria mais voltar! Com ele toda a sua própria vida, toda a sua alegria, toda a sua vontade de viver.

Isto era perto da época do Natal e o velho, como se muitos séculos tivessem decorrido no espaço de dias, sentiu um pêso, uma dôr tão profunda que nenhum Natal do mundo poderia nunca desfazer. Para ele tinha morrido o Natal-- tinha morrido o Sol, as estrelas, toda a felicidade que este mundo pudesse dar. Todo o frio e abandono da natureza o envolveu. O Sol tinha morrido com o filho e ele deixava de querer viver. 

Na manhã de Natal enquanto ele chorava a ausência do filho ainda, alguém bateu à porta. Como tinha dado folga aos criados, foi ele próprio até à porta. Aí deparou com um jovem soldado que sorrindo o cumprimentou e se introduziu como um amigo do filho. Pálido, o velho não conseguiu parar as lágrimas que lhe saltaram aos olhos e no seu aperto de mão, segurou-se com força a esse jovem como se a uma tábua de salvação, como que se através desse jovem fosse conseguir de volta o seu filho, a memória dele, algum pedaço da sua vida, dos seus últimos momentos.

O jovem trazia consigo uma embalagem. Falando, sentaram-se e aí o velho passou a escutar um relato em como tudo se tinha passado. Ficou a saber que este jovem tinha sido o amigo que o filho havia salvo a vida.

Artista, esse jovem havia prometido a si mesmo trazer uma oferta ao pai do seu melhor amigo. Entregando a embalagem ao último, pediu que esse a abrisse. O velho assim fêz--- rodeado de obras valiosas dos artistas mais famosos do mundo, ao desembrulhar a embalagem o velho deparou com uma simples e modesta pintura que logo soluçando abraçou como se alguém muito querido. Como se tivesse encontrado um tesouro perdido, ali ficou muito tempo a embalar-se com o quadro como esse se tratasse do próprio filho. Ao vê-lo assim, o jovem soldado respeitosamente levantou-se e saiu. Ele próprio havia pintado esse quadro---o retrato do amigo como soldado na guerra. 

Depois de algum tempo abraçado ao quadro, o velho com muito cuidado como se esse quadro se tratasse da obra mais valiosa da sua colecção, retirou um quadro muito valioso de um artista muito famoso de sobre a parede da lareira do seu salão. Lá depôs o quadro com a pintura do filho de quem não conseguia retirar o olhar. Todos os outros quadros deixaram de ter interesse para ele. Só aquele quadro simples se tornou o foco da sua colecção. Todos os outros quadros valiosos juntos, não tinham o valor desse pequeno quadro de moldura barata, pois ali estava o seu filho muito amado, o seu querido filho.

...
O velho voltou a encontrar-se com o amigo do filho mais tarde. Através dele ficou a saber de muito detalhe sobre a maneira em que o filho se comportou na guerra, como dignificou o seu país e o seu pai pela sua coragem e valôr. Aos poucos aprendeu a aceitar a realidade e a sentir orgulho dos feitos do filho e da sua nobreza de carácter. Passava horas sentado em frente à lareira a mirar a pintura como alguém numa noite escura a mirar o brilho de alguma estrela longíqua. Era como se um Sol se tivesse afastado, mas a presença ao longe e a memória dele era luz que ainda o segurava à vida.

Era aí que um criado velho da casa o vinha servir, ou no pretexto de ali trabalhar lhe fazer companhia e o animar.
Os outros criados abanavam a cabeça com dó e iam vendo aos poucos o nobre senhor se desfinhar para logo mais adoecer - morreu no fim da Primavera.

Logo a seguir, o mundo da arte, os museus e outros coleccionadores foram informados que em honra do filho do velho nobre, havia esse permitido que todas as suas peças de arte deveriam ser leiloadas depois da sua morte. A notícia deu lugar nos jornais mais lidos da época. De todo o lado do mundo chegaram artistas, administradores de museus e galerias, gente endinheirada prontos a aproveitar esta oportunidade única de enriquecerem as suas próprias colecções.

O testamento determinava que o leilão teria lugar no dia de Natal, o dia em que o velho havia recebido a oferta do quadro mais valioso da sua vida. Os salões reservados a tal leilão cedo se encheram de gente interessada numa boa compra e de muitos curiosos, entre eles alguns dos criados e conhecidos do velho nobre.

O leilão começou com um quadro que não estava em nenhuma lista de obra de arte de nenhum museu. Era um quadro modesto pintado por algum aprendiz que retratava o filho do velho nobre vestido de soldado.

O leiloeiro levantou a voz e deu inicio ao leilão.
"Senhoras e senhores, damos inicio ao leilão com este quadro de um soldado pintado por um amigo dele. Quem é que dá mil dinares por este quadro?"

Toda a gente se entreolhou. Ora porque não se ia de vez aos quadros mais valiosos e se deixasse tal insiginificância da mão. Alguns abanaram as cabeças em desaprovação. Outros respiraram fundo como se maçados. Um atreveu-se mesmo levantar a voz e gritar, "Nós estamos aqui para coisas mais valiosas. Esse quadro não vale nada. Nós não estamos interessados no filho desse senhor. Passemos ao que importa. Vamos lá!"
Outras vozes juntaram-se-lhe em protesto, mas o leiloeiro bateu com o martelo sobre a mesa e pediu silêncio.
"Senhores, o testamento indica que não haverá leilão sem que este quadro seja vendido primeiro. Quem é que compra a pintura do filho do nobre senhor, quem é, quem é que dá mil dinares por este quadro?"
A audiência moveu-se incomodada. Entre o tumulto que se seguiu, levantou-se uma voz e disse, "Eu só posso dar $500 dinares, mas ficaria com gosto com esse quadro. Conheço bem esse menino."

Tratava-se do fiel criado que ao notar a falta de vontade dos presentes em comprar o tal quadro se prontificou a comprá-lo ele mesmo. Ele conhecia bem o filho do nobre e estimaria ficar assim com uma peça que ele bem sabia o quanto significava para o seu velho senhor.
O leiloeiro consultou com os advogados ali presentes e depois de uns momentos de tensão e de desespêro da restante audiência, anunciou que o quadro estava vendido.

Todos os demais concertaram-se nas cadeiras prontos a iniciar o que haviam vindo para ali fazer.

Para sua surprêsa, logo de seguida ouviram o leiloeiro anunciar:

--Senhoras e senhores, acabou o leilão!

Novo tumulto apoderou-se da sala. Como podia o leilão acabar, se nunca tinha começado? Alguns dos presentes tornaram-se mesmo violentos e de uma forma bruta insistiram que alguém lhe explicasse o que estava a acontecer.

"Senhores, - explicou o leiloeiro, "segundo o testamento, quem quer que comprasse o quadro do filho deste senhor, também ficaria com toda a sua colecção e fortuna. Pedimos desculpa, mas não há mais nada para leiloar."

Nos jornais do mundo todo no outro dia, como título principal lia-se, "Quem Quer Que Tivesse Aceite o Filho Teria Conseguido Toda a Riqueza do Pai."

Adaptação de uma história em Inglês de autor incógnito 

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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